História de B.

-“Como o tempo passa devagar!” Disse B. depois de ter se dispersado com pensamentos esquisitos, caminhando pelas ruas estreitas de um vilarejo. Era uma época de guerra, tormentas e muita divisão do outro lado do mundo, mas ele nem fazia ideia dessas coisas. Quando chegou em casa lembrou-se dos cães que o haviam atacado duas horas antes de perder a consciência. Sentou-se na varanda e, minutos depois, adormeceu.

-“Claro! Foi isso que me fez ficar assim!” Disse B. a si mesmo. Acordou assustado e tudo se tornou claro em seu pensamento. Olhou no relógio da Igreja e saiu de casa correndo sem trancar as portas. Desceu ladeira abaixo apavorado e quando chegou nos arredores de um bar perguntou a um senhor se ele tinha visto um par de botas e um guarda-chuva pelo caminho. O senhor achou aquela pergunta estranha e apenas deu com a cabeça dizendo que não.

-“Oh, deve ser no outro quarteirão!” Ofegante e com os olhos pálidos caminhou mais um quarteirão. Quando ele percebeu que as ruas estavam desertas e que somente a luz da rua clareava sua vida, começou a procurar algo que tinha perdido ali. E foi ai que B. se lembrou das coisas. De quando tudo se apagou em sua vida. Era tarde da noite e não havia luz.

Foi então que começou a chorar e as lágrimas corriam em sua face como brilhantes orvalhados. Num instante sombrio de uma noite, naquela rua deserta, algo  tinha espatifado com suas recordações. Alguém tinha lhe dado uma pancada na cabeça. Ele viu e reconheceu. Mas apenas agora, numa outra noite clara como o sol, nada mais restava-lhe. Sentou-se na calçada e ficou esperando o dia clarear. Quando o sol apareceu, B. contou a si mesmo a verdadeira história. A história de 15 anos atrás, daquele mesmo lugar e das dores que o levaram ao sono. Sentiu um arrepio na cabeça novamente e aquela dor terrivel que durou quinze anos sumiu. Depois da noite do acidente, na manhã seguinte, B. se levantou e perambulou 15 anos pelas ruas da cidade J. Todos diziam que ele tinha ficado doente por causa do clarão da luz. Mas agora era tudo passado.

Isso não acontece todo dia num pequeno vilarejo: um rapaz perdido de si mesmo, por conta de uma pancada na cabeça. E se isso acontecesse, não seria sempre pelo mesmo motivo. Existem pessoas bastante frágeis e outras que aprenderam a usar, desde cedo, certas armaduras. B. pertencia à classe das pessoas frágeis. E nada neste mundo era mais doloroso para ele do que ser assim.

Apenas uma pequena mecha de esperança existe para o ser humano: o hoje. E o hoje é um composto de passado e  de futuro. B. tinha perdido tudo: o hoje e a esperança. Cada dia era como o começo de um nada para ele, sem luz e sem sentido. Ele sabia bem como chegar e sair de casa. Mas ele não sabia contar sua própria história aos outros. E isso dói.

 Ronaldo Sérgio

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