O que você diria?

Estava sentado esperando a minha vez. Haviam muitas pessoas na fila. Eu era apenas mais uma entre elas. Foi quando ouvi uma jovem moça dizer a seus amigos, ao menos me parecia sincera, o seguinte: “mesmo que meu companheiro me traia, eu não me separo dele. Ele me dá tudo o que preciso: jóias, presentes, roupas, casa, comida… ele pode ir com quem ele quiser, vai ser temporário mesmo…”

O princípio do julgamento consiste em não conseguir ver a realidade como ela é e, por isso, vemos a realidade como deveria ser, conforme a nossa realidade pessoal. O que você diria à respeito?

Talvez alguém diga: “que tolice”, “que vida é essa” ou “que moça doida”. Outros farão uma reflexão dizendo que a moça se tornou escrava do contexto e da sociedade capitalista. Que ela não vive e nem pensa por si mesma, tornando-se uma ‘coisa’ entre as outras coisas. Alguns dirão que talvez ela tenha vivido um complexo de abando no passado e que, por isso, criara para si mecanismos de defesa para se proteger da terrível dor do abandono e da solidão. Outros dirão que ela sofreu e sofre uma perda de identidade e que, por causa da fraqueza de caráter e perda da auto-estima, prefere não se afirmar, afirmando uma total dependência do outro.

Os filósofos mais ortodoxos começarão pela lógica e acabarão não dizendo nada a respeito, pois para eles a verdadeira ciência não dá explicações sobre indivíduos isolados, mas se preocupa com os universais e, portanto, multiplicarão os casos ao infinito caindo na metafísica do nada ou na ética do poder. Outros mais religiosos se perguntarão pelas razões humanas e divinas que levaram aquela moça ao extremo da probreza espiritual e moral. E os radicais da fé pregarão sobre o pecado e o castigo eterno dos pecadores, que não acreditam em deus. Os romancistas, por sua vez, apenas descreverão, através de uma linguagem narrativa, a trama da vida daquela moça que se desenha entre o amor e o ódio. Uma vida entre o prazer e o desprazer de, ao mesmo tempo, ter e não ter o amor do outro.

Todas estas interpretações e outras tantas podem ser consideradas instrumentalizações. Considero como instrumentalização a interpretação dos fatos que visam apenas dar justificativas a uma maneira de pensar e viver que, por sua vez, já se institucionalizou. Em outras palavras, instrumentalização é o juizo da realidade, contudo, alheio à realidade interpretada, mas que, por sua vez, afirma a realidade institucional do interpretador. Neste sentido, as palavras daquela moça se tornam instrumentos, ou melhor, objetos de juizo e explicação do mundo que os pensamentos institucionais criam. A moça mesmo pouco interressa. Ela se perde no emaranhado das palavras e se transforma em fantoche. Por isso, a instrumentalização da realidade deveria ser considerada um crime contra a pessoa humana.

A enorme tarefa da humanidade de hoje consite em salvar as pessoas da instrumentalização. E um dos caminhos consiste em, antes de tudo, co-viver com o outro para poder co-interpretar a vida e transformar a realidade que pode ser transformada.

Ronaldo Sérgio

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