Peregrino de alma forte!

Um mundo cheio de fantasias, de pedras e de rios ficava nos arredores das montanhas misteriosas onde tudo se escondia, quando não se revelava. Como algumas grutas, as pessoas eram repletas de secredos. Incontáveis segredos que, de vez em quando, apareciam no brilho do olhar ou em suas brincadeiras. Nada era tão distante que não podíamos tocar, nem sentir. Era um lugar onde os rastros permaneciam cravados no chão, nas árvores e no céu. Era um mito da alma.

As grutas, tão antigas, traziam desenhos das mãos do infinito. Eram eternas e passageiras ao mesmo tempo. Como as pessoas. Como os pergaminhos com rabiscos tortuosos das mãos humanas. Tudo era muito concreto e palpável, embora inescrutável e insondável. Eu gostava de estar ali e sentar-me. Que coisa bela e fascinante. A gente nem fazia de conta que era uma ilusão, o que era uma ilusão mesmo, tentar descobrir os porquês. E levávamos a vida com o que era bonito. O bonito que ficava entranhado na alma da gente. E isso era tão real que doia.

O tempo passava tão depressa e nós nem imaginávamos onde iríamos viver no dia seguinte. Coisa de peregrinos que nada têm para levar consigo. Embora as grutas da alma estivessem cheias de tudo o que vivíamos. Havia, é claro, o peso de sermos nós mesmos e o alívio de podermos modificar algumas coisas. O caminho nunca estava e nunca esteve pronto, não existia ainda, mas a realidade fazia suas alusões ao futuro. Havia apenas resquícios do passado que apontavam para o que viria. Pois o que viria já estava na alma. Era uma luz interna, um lampejo para o bem e para o belo.

As grutas daquelas montanhas guardavam segredos e perigos. Havia fendas que levariam para a morte. Eram esconderijos de serpentes. Sombras e escuridão. Desenhos de um outro mundo cheio de advertências e de malícias. Um símbolo das coisas do mal. Embora as grutas da alma fossem também obscuras, elas traziam a luz que dá sentido e beleza à nossa vida. Como homens, senhores do noite e do dia, ficávamos lá dentro sentados. Apenas a luz reinava. A luz sobre o mal, a escuridão e o perigo estava na alma.

Tínhamos sempre que nos abrigar quando chovia. E não existia outro lugar tão bom quanto aquelas grutas. Silêncio e sossego. Tempo de calmaria e de olhar. Olhar para qualquer lugar. Longe ou perto. Viesse o que viesse as coisas paravam de acontecer, enquanto pequenas lágrimas caiam do céu. E a alma da gente se enchia de vida, de coragem e esperança. Os trechos escuros da alma, as sombras e a escuridão, davam lugar à vida, ao outro, à Deus, e ao belo. Viver era um misto de luta e descanso. Viver era dar lugar à luz.

Assim desenhávamos nossa história e construíamos uma gruta onde todos e tudo tinha o seu lugar. Agora, onde estamos e vivemos, é belo ver os peregrinos de alma forte e valentes.

Ronaldo Sérgio

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