Liberalismo e individualismo!

A filosofia de Aristóteles conheceu três períodos de florescência. O primeiro foi no mundo antigo, no tempo em que o filósofo vivia e trabalhava. O segundo período foi mais longo, começou logo depois de sua morte e durou até o século sexto depois de Cristo. O terceiro começou na idade média tardia, permanecendo até o século dezessete, na europa ocidental.

Depois do século dezessete a filosofia de Aristóteles foi perdendo cada vez mais terreno, dando lugar à filosofia moderna. Apesar disso, alguns elementos ainda têm uma importância muito relevante para os nossos dias e que nos ajudam a fazer uma reflexão sobre a atualidade. Um destes elementos é o forte acento de seu pensamento em relação à concepção de que o ser humano é um ser social por natureza. Muitos sociólogos e filósofos de hoje recorrem à este aspecto para justificar suas críticas ao liberalismo e individualismo da sociedade em que vivemos.

O flúxo das mudanças atuais não nos deixa pega para definir precisamente o que é ou o que não é a nossa sociedade. Mesmo o ser humano, em sua fluidez cotidiana e em sua falta de fixação no mundo da vida, não tem uma única fisionomia. Como consequência os laços e vínculos sociais e comunitários não se caracterizam mais pelo contato corpo a corpo das pessoas, mas via-a-via. A virtualidade e a coisificação da pessoa são alguns aspectos destes laços via-a-via, nos quais a pessoa passa a ser considerada apenas um número, uma estatística, uma renda, um desejo, um endereço eletrônico, uma foto bonita, etc…. Talvez devéssemos chamar esta sociedade de “sociedade inexistente”, pois os vínculos via-a-via não pressupõem um ethos, uma casa e nem uma ética. O que são elementos básicos de uma sociedade interpessoal.

Mesmo a linguagem, uma característica essencial para os laços sociais, tem se tornado um dito pelo não dito. É bom lembrar que a linguagem não é um elemento artificial de socialização como aqueles criados pelo sistema liberal e pelo individualismo. A linguagem é um meio simbólico que pressupõe o corpo, a mente e o espírito, a pessoa em sua totalidade. Em sua natureza mais própria ela é interpessoal. Não objetiva e nem subjetiva a realidade da vida da pessoa, mas cria o ethos, a casa à partir da intersubjetividade, trazendo a possibilidade de uma ética social.

À primeira vista, parece-nos que o liberalismo e o individualismo vieram para ficar e que, atualmente, se tornam cada vez mais uma maneira fixa de ser e de compreender o mundo. Com palavras mais simples e vulgar, essa parece ser a única via permanente para a felicidade humana. O que é bastante contraditório com o que havíamos dito no parágrafo anterior à respeito das mudanças e da fluidez da vida social de hoje. O que é fixo não pode fluir e nem mudar e permanece como estrutura que define uma maneira de viver, carregando diferentes consequências consigo mesma. Mas, ainda não podemos afirmar que o individualismo e o liberalismo realmente se fixarão como modo de ser neste mundo. O que sabemos é que em sua estrutura interna, tanto um como o outro, são falhos. Ou seja, em sua estrutura enquanto mentalidade global eles têm a tendência de se destruir a si mesmos.

Embora o individualismo e o liberalismo levem o ser humano à inconstância social, política, psicológica, religiosa, etc; sabemos que as pessoas procuram meios para se fixar e se estabelecer como família e comunidade social. Esta inclinação humana de ser com o outro, de estar com alguém, de se solidarizar e viver com… permanece procurando meios de se sobreviver. Contudo, usando meios liberais, individuais, fragmentários por natureza. Por isso, vemos a fragilidade das políticas sociais nacionais e internacionais que dizem respeito às relações de ajuda mútua e cooperação. No ambiente mais pequeno e localizado, o que vemos são famílias desestruturadas procurando uma terceira via para sobreviver enquanto família. Porém, os meios são sempre falhos, pois em si mesmos instáveis e fracos. São como pernas-de-pau.  São apenas para o hoje, para o amanhã ou, no máximo, por um ano. Os meios, os vínculos via-a-via têm prazo de validade, usando uma linguagem da economia.

O caminho mais seguro a ser proposto consiste numa mundança de parâmetros e de mentalidade. Junto com isso, temos de propor outros meios e vias que não sejam aqueles do liberalismo ou individualismo. Propostas concretas que devem nascer das ciências humanas e sociais e que estejam fundadas naquilo que permanece como estrutura: a tendência humana inata de se socializar, de viver com os outros e para os outros. O ser humano não é um ser social por natureza, mas por tendência.

 Ronaldo Sérgio

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