Desenhos de meu pai!

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Quando eu era criança adorava ver meu pai caminhar. A maneira como ele pisava o chão, a força e a distância de seus passos, o impulso de seu corpo e o ritmo continham um grande mistério. Era maravilhoso contemplá-lo pela estrada afora.

Eu tentava seguir seus passos, remedar a maneira como ele andava. Que coisa fascinante. Que ousadia de menino tentar ser grande. E valia a pena ser menino com pensamentos assim. Embora os passos de meu pai sempre fossem os de meu pai, eu queria aprender a caminhar. Caminhar com propriedade e com certeza. Fazer caminho.

Quando eu caminhava sozinho pelas mesmas trilhas e estradas por onde meu pai havia passado, via as pegadas de seus passos. Sempre tive a sensação de que ele tinha levado consigo um trecho daqueles caminhos. Trechos que eu nunca andaria. As estradas, por vezes, ou as trilhas espalhadas pelo campo, escondiam a face de meu pai e guardavam consigo um pouco dele. Eram trechos da vida dele desconhecidos por mim, que jamais conheceria e nem conhecerei.

Se chovia e os vestígios dos rastos de meu pai sumiam, dava-me uma tristeza profunda. Tristeza que doía muito. Dor de ter perdido o fio condutor que me levaria para longe e que me faria ser alguém. Mas, mesmo no susto de ter que começar tudo de novo e de escolher como, por onde e para onde ir, eu tentava reconstruir o que tinha aprendido. E procurava desenhar os meus passos como meu pai desenhava os seus. Pois os desenhos dele pelo caminho eram bonitos e tinham valor para mim.

Caminhar nesse tempo era viver. E viver era trabalhar, sorrir, sentar-se à beira da estrada, descansar, festejar, estar junto, conversar com meu pai. Pelo caminho os encontros sempre eram inesperados. Meu pai os acolhia com muita simpatia. Parava. Conversava. Dava tempo aos encontros. Tempo que fazia o caminhar leve e descompassado. Era uma lição de vida. Era tempo de acolher o outro em seu caminho, de aceitar os caminhos dele e de caminhar com ele um trecho, mesmo parado ao longo da estrada.

Viver nesta época era uma tentativa de seguir meu pai. Hoje, dono do próprio caminho, tento não esquecer os trechos cheios de sorrisos, alegrias, sofrimentos e dor. E guardo tudo no coração, pra sempre agradecido. Papai.

Ronaldo Sérgio

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