A solidão da luz! I

Dez e trinta da noite e nada mais que o coaxar dos sapos e o barulho longe dos motores dos carros. De vez em quando ouço o latir sem vontade de um cachorro, que mais parece não saber o que fazer depois que late. De noite entra uma luz discreta em meu quarto. As penumbras do lado de fora ficam fazendo graça entre esses raios de luz. O escuro da noite quase não existe mais e meus olhos não sabem, há muito tempo, o que é a escuridão. Já se esqueceram disso. Faz tempo que meu corpo não sente o fremir de algo estranho aparecendo do nada. “Mataram o nada” e ninguém sabe disso ainda. Os filósofos ficam preocupados porque Nietzsche proclamou a morte de Deus. E os teólogos ficam procurando caminhos estreitos porque os largos são do demônio. Pena que quase ninguém será salvo pela teologia e nem pela filosofia.

“Mataram o nada”. Mataram nossa destreza de descobrir caminhos onde não existe luz. Dai a fraqueza humana que leva para o stress, a depressão, a virose, o câncer etc. Por isso as pessoas procuram refúgio nas pegadas iluminadas das ciências exatas e das ciências humanas. Outros correm para a escuridão dos atalhos: remédios controlados. As pegadas iluminadas e os atalhos são, muitas vezes, apenas paleativos. A fortaleza humana está no homen mesmo, dizem. Mas não. A fortaleza humana é uma luta entre ser e não ser – o nada.

Dez e trinta da noite e ainda é cedo para ir dormir. Restam a paciência e o marejo das ondas calcinantes de uma noite quente. Percorrer cada minuto para depois se desconectar do mundo. Do mundo das luzes; “da iluminação”.  Quando havia escuridão, todos sabíamos das manobras do que há de vir. Mas, o que vinha sempre nos surpreendia. Hoje ninguém mais precisa esbugalhar os olhos para ver. E ninguém consegue ver o suficiente para esquecer a “solidão da luz”. As pessoas estão cheias do ser.

O “nada” fazia parte da vida, mas hoje não. Nas vizinhanças do “nada” o ser e a vida brincavam. Mas hoje eles se afastaram do “nada”. O ser e a vida estão só e iluminados pela luz que desgasta por causa de sua monotonia. As pessoas desaprenderam a viver na escuridão. A escuridão foi banida: nada de morte, de dor, de tristeza, de sofrimento, de doenças. E as pessoas esqueceram o que essas coisas significam e se enfraqueceram. A felicidade foi uma ilusão – um excesso de luz.

Se a vida fosse apenas uma conjuntura de acasos, diríamos que os pardais são mais felizes. A vida humana é mais que um caso; é mais que um lance difícil. É mais que o dia e que a noite desenrolando um novelo de linhas. A vida é uma luta entre ser e o não ser – o nada.

Ronaldo Sérgio

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