Meio copo d’água! III

Meio copo d’água ao lado das chaves. As chaves de uma vida que canta e dança ao rítmo das cigarras. O mundo de Deus é o mundo das cigarras.

“As areias da estrada queimavam-lhe as solas dos pés. Por isso ele andava depressa para chegar logo debaixo dos eucaliptos. Faltavam poucos metros, quando viu as laranjas maduras do outro lado da cerca. Sentiu um desejo enorme de quebrá-las. Esqueceu-se do calor do chão. Esqueceu-se mesmo das cercas. Esqueceu-se de si mesmo e com muito esforço conseguiu alcançar uma das laranjas. Depois foi embora como se nada tivesse acontecido. Passou tão depressa pelas sombras dos eucaliptos que nem se deu conta que a estrada tinha acabado e que começava uma trilha.”

Meio copo d’água e uma laraja na mão. O que faz as pessoas, ainda que seja por um curto espaço de tempo, esquecer o antes e o depois? Às vezes, meio copo d’água é o presente. Apenas meio copo d’água”: uma laranja talvez. Os pés se vão sem saber para onde e o corpo se deixa levar pelo desejo do paladar. E esquecemos tudo ao nosso redor por conta de uma coisa gostosa.

As chaves da vida ficam todas no mesmo lugar. Ao lado de meio copo d’água. Elas ficam ali perto do mundo que você pode tocar, cheirar, ver e sentir. Parece uma coisa simples e não é. Quando o vida se materializa em algo, todas as outras coisas ficam suspensas no ar como se não existissem. E as possibilidades delas novamente cairem no real depende de destreza para sair da  presão do “desejo pessoal”; porque o real é maior que “um desejo”. O que faz a vida presente real não é o “presente pessoal”, materializado na realização do desejo pessoal. O desejo pessoal pode ser, e muitas vezes é, uma ilusão. A ilusão de um mundo privado. O presente é uma situação maior que o “mundo dos desejos pessoais”. Embora o “mundo pessoal” seja uma chance de estar no presente.

A laranja pode ser deliciosa assim como meio copo d’água quando estamos com sede. O mundo nem se importa se escolhemos, por alguns segundos, viver com apenas uma laranja, quando todas as outras coisas ficam de lado. Deus também não se importa se ficamos desconexos de todo o resto, por conta de uma estrela ou de um peixinho no aquário. O que importa é se temos as chaves para ir dando sentido às coisas desconexas que vamos experimentando. As chaves vem do alto, de Deus; e dos valores permanentes da humanidade. As chaves são como um talento pessoal para ir costurando ou pintando os momentos do dia. Meio copo d’água, as areias da estrada, o sol ou uma laranja; não importa e não seja incrédulo. O agora depende das chaves que você tem e não de seu desejo. E pode ser um agora nosso ou apenas seu. Pode ser um agora bom ou desastroso.

Ronaldo Sérgio 

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