Rancho de Deus!

Na enconsta de um morro o sol sempre demora mais para chegar. Como nas demoras do sertão onde a lentidão dos raios aponta para uma direção. E o recado era sempre “ tenha calma, no sertão tudo é muito distante e muito perto ao mesmo tempo”. Era assim em nossa casa quase todas as manhãs. Quando a noite se dissipava no horizonte e tínhamos de levantar. Era cedo e fazia frio. Levantávamos lentos e desconsertados, porque algo tinha ficado para trás sem que percebéssemos. Para o trabalho! Avante! Um novo dia começava.

Antes que os sonhos terminassem, já era dia. E como numa oca, sem portas e janelas, os ventos vão e vem, nossas sensações vagavam no corpo da gente. Eram livres, porém sem destino. Inconscientes. Pequenos realces desses sonhos ficavam o dia inteiro nas rasuras de nosso pensamento.  E era lindo olhar o céu e ver que o dia também trazia suas fantasias e seus sonhos. Até que um fogo incendiava esperança no coração. Lá vem o sol e o céu ficava tão azul! Tão azul, que o infinito entrava dentro da gente.

Era sempre uma sensação estranha vestir as roupas do dia anterior. Era como se quiséssemos diminuir a distância entre noite e dia, passado e presente. Era uma luta. Mas, não havia outra escolha. O corpo tinha de se adaptar como nas vertentes o rio. Os descompassos ficavam normais e a sensibilidade corrompida. O corpo tomava para si algo incomum. E, em pouco tempo, nem sentia e nem estranhava mais nada. Porque todos aprendemos a fazer nossas próprias armaduras e o corpo também. E assim pegávamos o caminho da roça. As trilhas que nos levavam para o rancho de Deus.

A lentidão do amanhecer não existe mais. Porque para muitos não existe mais amanhecer. Existem atividades. A mística do amanhecer do dia desapareceu. Os olhares foram metalizados. As forças terceirizadas. A beleza do amanhecer e seus rituais caducaram. A lentidão deu lugar para a correria. E o corpo teve de se adaptar, mas com ranços de rancor, câncer, stress e…  O dia foi prolongado. A noite encurtada. E as coisas da alma vagam livres e errantes na pressa dos sonhos agitados da noite. Na vida moderna não há espaço para rancho de conforto e aconchego. Daquele feito à mão. Na vida moderna não há a lentidão dos heróis que criam lendas construindo ranchos divinos. A gente apenas vê e sente as distâncias das pessoas em redomas motorizadas. E o sol permanece fazendo do dia e da noite um mistério. Quase ninguém vê.

Ronaldo Sérgio

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