Anonimato!

Andava pelas ruas apressado porque tinha que chegar logo a casa. Tomei o primeiro ônibus e, por isso, tive que me sentar numa das piores poltronas. Tudo bem, para chegar logo a casa estava disposto a fazer qualquer sacrifício. Ao menos naquele dia sim.

Depois de alguns minutos subiu o último passageiro. Aqui onde moro os ônibus públicos só partem depois que estão lotados. E assim partimos. No ônibus ninguém falava com ninguém. Era um silêncio medonho. Ouvíamos apenas o barulho do motor e dos solavancos que o motorista fazia o ônibus dar ao dirigir tão agressivamente. E, é claro, ouvíamos os ruídos de lá de fora.

O trânsito estava um pouco congestionado em alguns trechos apenas. Mas, isto não era motivo para que nos atrassássemos. Tudo estava perfeito para mim e para outros ao meu lado. Chegaríamos a casa com toda certeza. Não chovia, nem ventava forte e o sol estava ameno aquele dia. O céu azul, com nuvens brancas espalhadas aqui e ali, também estava bonito.

Distraía-me com o ir e vir de carros, das pessoas, dos ciclistas e com a natureza espalhada pelas ruas. No entanto, no ônibus ninguém conversava com ninguém. Eu também não. Nem ousava. De vez em quando, alguém atendia ao telefone. Apenas nestes momentos ouvíamos vozes.

Isto não é um fenômeno menos comum, hoje em dia. Entre muitos afazeres e muitas pessoas desconhecidas, melhor ficar calado e observar. Por que puxar conversa com alguém que você não conhece? Com uma pessoa desconhecida, falar o quê? E depois, será num curtíssimo espaço de tempo e pode ser que você nunca mais verá esta pessoa outra vez. E se, por azar, a gente começar a conversar com um bandido? Será que ele não nos seguirá para descobrir onde moramos, o que fazemos, por onde andamos e o que possuímos para nos assaltar? E se for uma moça ou um rapaz mais elegante, será que eles não pensarão que estamos interessados em algo mais? Melhor deixar pra lá. Nada de conversa e nada de comprometimentos. Palavras comprometem. Nada de papo com gente que não conhecemos. Melhor ficar no anonimato mesmo, respeitando o anonimato dos outros.

E assim construímos um mundo de ninguém…. Um ônibus lotado, mas onde pessoas não conhecem uma a outra, parece com um ônibus vazio. Para o motorista, em especial, os passageiros significam dinheiro: pão ou diversão. Mas, entre os passageiros não existe vínculo, apenas o tempo e o espaço os unem.

O anonimato é assim… como janela fechada para o que há de mais normal na vida: viver com o outro e para o outro. Ele neutraliza as palavras e os pensamentos neuróritos ficam vagando em nossa cabeça. A sociedade que fortifica o anonimato cria seres humanos fracos, fragmentários e incompetentes ao relacionamento edificante e maduro. Cria vazios… e falta de sentido.

Ronaldo Sérgio

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