Sexta-feira santa!

“Não faça isso, ‘que Deus castiga”, era o que sempre ouvíamos de nossa mãe, principalmente no tempo da quaresma e, mais ainda, na semana santa. Neste período do ano tudo parecia mais sagrado e não podíamos judiar das plantas e nem dos animais. Estrepolias e travessuras que fazíamos, como todo moleque.

Na sexta-feira santa não podíamos fazer quase nada. Minha mãe fazia apenas as coisas de última necessidade como a comida. Não lavava roupas, nem varria a casa. Apenas tratava das galinhas, dos porcos e do cachorro. Meu pai também não ia para a roça trabalhar. Tirava o leite que era necessário para as famílias e voltava para casa. As crianças, cujo único labor era brincar pois não havia escola, não podiam fazer o que faziam todos os dias. Nada de algazarras e barulhos e brincadeiras como pega-pega, esconde-esconde e outras.

Mas, a tendência das crianças, em especial dos moleques, era mesmo de extrapolar, porque sabíamos que nossa mãe não podia nos bater. Na sexta-feira santa era pecado bater em criança. E este pecado ela nunca cometeu. Ela, no entanto, dizia: “pode deixar, no sábado de aleluia vocês vão ver, vocês hão de levar, vou tirar toda aleluia de vocês”. Sim, na sexta não, mas no sábado seria a sova. Ficávamos com medo e funcionava, pois nos comportávamos melhor.

E assim aprendemos que na sexta-feira santa a vida pára, a morte acontece, o mal está por perto rondando a nosssa casa, porque tudo se tornou escuro e frágil com a morte do filho de Deus, Jesus. E se, por um lado, víamos o seu grande gesto na cruz como um gesto de amor e infinito querer bem o ser humano, por outro lado víamos o mal em sua máxima grandeza e manifestação de poder. A escuridão do mundo, na tarde de sexta-feira santa, era o sinal que deveríamos tomar cuidado e nos acomodar dentro de casa, como os discípulos de Jesus o fizeram, porque o mal está próximo de nós, onde vivemos. A escuridão ainda perdurava em nosso mundo. Deus Pai também ficou em silêncio, amando em silêncio. Mas, aquela hora era a hora da escuridão e não da luz. Era o dia em que deveríamos velar, vigiar, orar mais e nos calar.

Embora nossa mãe prometesse tirar a sova no sábado de aleluia, nunca o fez. Ela deixava pra lá. Já tinha passado. Sábado era um novo dia, uma nova aurora e era bonito ver as crianças livres sairem pr’o terreiro e brincar. Tudo chamava vida e felicidade. A luz do sábado e do domingo de aleluia revigorava. As plantas, os bichos e todas as coisas exalavam outra cor, outro brilho. Era a luz do dia em que celebramos a ressurreição de Jesus. O bem que vence o mal, a vida que vence a morte.

Ronaldo Sérgio

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