Aprender a viver, lenhando!

Algo que sempre fazíamos quando morávamos na roça era lenhar. Tratava-se de uma obrigação. Todos deveriam ajudar.

Depois do trabalho, a caminho de casa, catávamos gravetos pela estrada afora, galhos secos, madeira caída pelos pastos e levávamos para casa. Em muitas ocasiões saíamos exclusivamente para lenhar. Fazíamos nossos feixes e os atávamos com cipós ou com a nossa própria camisa. Frequentemente, tínhamos que andar longe, morro acima ou morro abaixo para encontrar lenha boa e seca.

Com o feixe sobre os ombros a distância parecia duplicar. Parávamos pelo caminho para descansar sob as sombras de uma árvore ou para tomar um pouco de água fresca de um riacho. Depois, seguíamos em frente. Às vezes, tínhamos que atravessar cercas de arame farpado e era bastante chato, porque o feixe de lenha se desmanchava, se afrouxava e tínhamos que atá-lo novamente.

Quantos calombos, calos e bolhas de sangue nos ombros da gente e um vermelhidão no pescoço que apenas desaparecia depois de um bom tempo. Ao chegar em casa, o mais gostoso era deixar o feixe de lenha no terreiro. Ouvir o barulho dele caindo no chão e sentir-se aliviado do peso.

Todos nós temos que aprender a viver e a ser gente. De uma forma ou de outra este é o nosso destino, aprender a ser gente. Existem muitos caminhos e muitas maneiras para tal. Lá em casa aprendemos lenhando. Nossa fortaleza e nosso caráter de pessoas justas e bondosas, de pessoas que lutam e amam, de pessoas que adoram viver na luz, começou assim: lenhando.

Hoje em dia, muitos diriam que isso era trabalho infantil. Mas, naquela época não. Éramos criança sim, mas também tínhamos deveres. Somos gratos porque aprendemos desde cedo a fazer algo pelos outros, a fazer algo para si mesmo e a sonhar. Lenhar foi uma escola para nós, dando-nos chances de ser gente e fortalecendo-nos para a vida.

Uma das razões da fraqueza das gerações de hoje, mais chamada de “geração líquida”, é a falta de obrigações e deveres que elas não podem assumir, porque tais obrigações e deveres vão de encontro à lei de proteção da criança e do adolecente. Nada contra estas leis que, por sinal, são ótimas e tem ajudado muito a sociedade a enfrentar a violência contra nossas crianças e adolecentes e o trabalho infantil escravo. O problema está na má interpretação e no mau uso destas leis.

Penso que se cumpríssemos as leis da infância e da adolecência lenhando, educaríamos nossos filhos melhor e mais integralmente. Lenhar é viver com eles. Lenhar é brincar com eles. O trabalho edifica desde muito cedo. Neste sentido, trabalhar e brincar não se contradizem. Estes dois momentos podem ser um momento apenas e podem levar ao crescimento saudável de nossas crianças. Entendam lenhar aqui como uma metáfora. A metáfora de uma educação integral que considera todos os aspectos de uma vida em crescimento.

Ronaldo Sérgio

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