Carro de boi!

O canto do carro de boi ainda faz eco em minha memória, correndo de morro a morro e chamando a minha atenção. Moroso pela estrada afora, faz-me lembrar dos tempos da vida na roça e de suas peculiaridades.

Hoje em dia, quase não vemos um carro de boi. Ao menos onde morávamos não. Lotado de coisas, de café ou de milho, de feijão ou arroz e sendo conduzido pelo carreiro com sua vara na mão, um chapéu e um facão na cintura. Naquelas estradas de terra o rastro das rodas ficava dias e dias.

Como muitos sabem, um carro de boi sempre tem que ter o boi carreiro. Aquele que sabe para onde ir porque foi treinado para seguir o comando do carreiro. Um boi carreiro bom é aquele que conhece o cheiro, a voz, a fasionomia, o chapéu e jeito de andar e gesticular do carreiro. Todos os outros bois do carro o seguem e, assim, chegam ao seu destino.

Recordo-me sim de um carro de boi muito especial, mas este estava lotado de móveis e colchões, panelas, cobertores, roupas, guarda-roupa, uma mesa pequena e algumas cadeiras de pernas frouxas, um banco de tábua, um armário velho e camas um pouco quebradas. Havia também um rádio Motorola e alguns penicos.

Meus pais se mudavam para uma fazenda. Eu era bem pequeno na época, no entanto, compreendia o que estava acontecendo e achava tudo fantástico. Nova casa, novo lugar para fazer estrepolias e aquele vai e vem de gente ajudando. Que delícia. Até mesmo a comida tinha outro sabor. Tomar banho era como se fosse a primeira vez na vida. Correr pela casa e pelo quintal preenchia o coração da gente.

Hoje, longe da estrada e dos carros de boi penso em meus pais que foram me ensinando a ser um bom carreiro. Um carreiro humilde e forte para seguir estrada sozinho conduzindo o carro de boi, a vida e a minha família. Não uso chapéu, nem vara na mão e nem facão na cintura. Uso meu jeito de ser, de falar, de fazer as coisas e de amar. Uso meus talentos e minhas palavras. Uso meu corpo e vivo assim. O eco que ouço do meu carro é lindo, traz paz e esperança e, por isso, louvo a Deus agradecendo meus pais.

Se eu fosse me mudar novamente e tivesse que usar um carro de boi, usaria sem vergonha ou receio. Sinto vontade de sentar-me no recavém e de segurar-me num dos fueiros e desfrutar do caminho que fica pra trás. Sinto o cheiro do campo, dos bois e o vento batendo contra o meu chapéu. Ver o mundo de um carro de boi faz a gente ser mais gente eu penso. Na verdade faz a gente ser imensamente agradecido por tudo.

Ronaldo Sérgio

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Um comentário em “Carro de boi!

  1. Muito bom, Ronaldo. Aqui em Minas Gerais, acho que no interior ainda encontramos alguns desses carros de boi. É algo muito bom de se recordar. Parabéns pela sensibilidade! Muito bom conhecer seu blog.

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