Mendigo!

Escondido atrás dos muros
de um cemitério abandonado,
tirava um trapo e outro punha,
sofrido e desamparado.
Com a sacola sobre o túmulo,
revolvia a memória dos mortos
num silêncio de dor oculta,
em si mesmo a sofrida sorte,
a fome, a sede e tudo
o que faz chorar o forte.

Entre as sombras de dois mundos,
o daqui que apressa e entorpece
e o além de quem bem no fundo
a escuridão já conhece,
pensava não estar sendo visto
nem por gente e nem por cadáver,
segurando no peito, consigo,
o único bem manejável,
os trapos de suas vontades
e os desejos de uma vida afável.

No corpo as marcas de agrura
dos dias longos de solidão,
caído entre cães na rua
invisível aos olhos que vão
e vêm correndo o universo oculto
das suas próprias preocupações.
Mas, agora entre vivos e mortos,
relembra a perda de si.
Sobre si mesmo ele pensa:
o que me trouxe aqui?

Longe do espírito o luto,
mas a luta contra a escória
lhe chama ao caminho duro
a mendigar sua história.
Desolado frente ao túmulo,
repõe tudo em sua sacola
os lugares, as pessoas e o mundo
que lhe moldara a memória,
a alma que mendiga vida.
A vida, quem lhe roubara?

Sem nome, sem teto e sem rumo,
amordaçado e sofrido,
nada mais do que um vulto
criou o mundo o mendigo.
Tirando-lhe a porção de luxo,
criando um defunto vivo,
que implora de nós revolta,
mas que nunca mendiga isso.
O mundo que abriu a cova,
vai enterrá-lo como um bicho.

Ronaldo Sérgio

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