Escombros da vida moderna!

Geralmente, faço a mesma pergunta quando estou estacionado na beira da estrada. De onde vêm tantos carros e para onde vão? O fluxo constante, o vai e vem de pessoas, é muito interessante. Parece a correnteza de um rio que não para um segundo. Às vezes, está mais calma e noutras mais bravias.

Quando andávamos a pé ou a cavalo, de charrete ou de carroça, de carro de boi ou de bicicleta a vida era mais lenta. Tínhamos menos atividades em nossa agenda e, por isso, o nosso cotidiano tinha mais demora, mais contemplação.

Os rituais da vida aconteciam conforme a lentidão natural do meio ambiente. Não havia tantos atropelos como hoje e os vínculos que ligavam um momento ao outro eram mais fortes. Dávamos tempo aos rituais e isso trazia mais conforto para a alma. Era mais fácil antecipar e prever os fatos que se seguiriam. Assim, podíamos nos preparar melhor para enfrentar os desafios da vida.

Contudo, vieram o trem, o carro a motor, o avião e todos os assessórios modernos que a tecnologia nos presenteou. A lentidão deu lugar à pressa e a pressa trouxe consigo a falta de tempo. As mil atividades agendadas são uma tentativa de controlar, regrar o nosso cotidiano para que não nos percamos. Nossas agendas procuram regular as horas e diminuir os espaços vazios entre uma coisa e outra. Nada de perder tempo. Tempo é dinheiro. Tempo é tudo.

Assim, desaprendemos a lidar com os vãos que existem no caminho, com os vazios e o silêncio que nos assaltam em nosso dia a dia. Desaprendemos a lidar com nosso corpo, com nossa quietude interna, com a solidão que somos e com a lentidão do nosso coração e nossa alma. Nossas habilidades pessoais foram tecnologizadas e terceirizadas, para se tornarem mais eficientes. Como consequência perdemos a destreza nata que tínhamos de enfrentar pequenos obstáculos da vida.

Muitos rituais deram lugar às atividades. Outros se tornaram um pano de fundo enfeitando nossa vida. Outros ainda são vividos aos trancos e barrancos, aumentando a nossa sensação de que tais rituais não têm mais sentido hoje. Que estão fora de moda.

Girar a manivela e fazer o tempo voltar é impossível. No novo tempo, nos dias da tecnologia, a lentidão morreu. Hoje somos a perda do tempo que acumulamos. Não vivemos de alma e nem de coração, vivemos na superfície dos eventos. Os encontros são programado ou prorrogados para o amanhã. Os acasos agem como diabos em nossa vida, jogando-nos no inferno do imprevisto e trazendo caos para o nosso cotidiano. Desorganizam tudo. Assim, ficamos cegos diante da beleza dos encontros repentinos e inesperados. Fechamo-nos para o outro e para o belo que desponta todo dia.

Mas, era justamente a lentidão que dava sabor à vida, que trazia conforto para a alma e regia os olhares descompassados. Era ela a possibilidade dos encontros inesperados e demorados, das conversas cheias de lorotas e de estórias cativantes. Era ela que dava vida à imaginação, aos ditos que não existem mais. Era ela que bordava nossa vida com a linha do amor, da atenção, do carinho e do riso. A lentidão trazia sempre um bocadinho de paz e de esperança. Precisamos resgatá-la dos escombros da vida moderna.

Ronaldo Sérgio

 

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2 comentários em “Escombros da vida moderna!

  1. omiaudoleao disse:

    Muitas vezes Tb pensei no q está escrito no primeiro parágrafo. Cheguei a conclusão q qdo estou com este pensamento, vejo muita semelhança com as formigas. 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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