O barulho da panela de pressão!

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Foto de Ronaldo Sérgio

Aquela noite na vila estava muito calma. Os mesmos bares estavam abertos, com os mesmos senhores jogando carta, bebendo pinga e contando casos. A escola com os professores e alunos que, na hora do recreio, faziam um barulhão danado. Mas, não desta vez. Nas casas se viam as mesmas luzes acesas, com as pessoas assistindo aos mesmos programas de televisão.

De noite, era assim a vida no pacato bairro. Mas, aquela noite estava mais escura. Havia mais silêncio. O vento não soprava tão forte. Os carros não passavam na rodovia. E as crianças, no intervalo do recreio, estavam mais calmas. As ruas quase desertas e a escuridão que rodeava a vila toda davam uma sensação de temor.

Mas, naquela noite, o medo veio de outros cantos e por outro motivo. O marasmo nos bares, a monotonia em casa e os estalos na cabeça dos professores que davam aulas foram brutalmente interrompidos pelo barulho das sirenes dos carros da polícia que, a toda velocidade, corriam pelas ruas da vila. Estavam atrás de um outro carro que, poucos minutos antes, chegara no bairro e fora se esconder nos arredores da igrejinha, no pé do morro.

Os palavreados nos bares pararam, as casas abaixaram o volume da televisão e os professores pararam de dar aulas. Muitos saíram dos bares para ver o que havia acontecido, os professores foram à janela das salas e outros tantos saíram no terreiro de casa para ver o que era.

Num raio de poucos minutos, todas as pessoas da vila ficaram sabendo que se tratava de fugitivos da polícia. Mas, os policiais não os prederam, porque eles tinham entrado pasto adentro e deixado o carro ao lado da igreja. Escaparam da polícia tomando o caminho da escuridão, no meio do mato.

O clima em toda a vila foi de pânico e de medo. Os bares fecharam suas portas imediatamente. As casas também fecharam suas janelas e portas. A diretora da escola enviou todos os estudantes para casa, trancou tudo e foi embora junto com os professores. Em poucos minutos o silêncio ficou ainda mais denso e a escuridão do caminho parecia ainda mais pesada e medonha.

Ficamos nós, meus amigos e meus irmãos, nos perguntando como voltar para casa. Nosso caminho ficava exatamente na mesma direção em que os ladrões tinham escapado. Certamente, eles pegaram as mesmas trilhas que pegaríamos e tinham se escondido no cafesal ou em uma moita na beira do caminho.  E agora, o que fazer? Perguntávamos. Os policiais já tinham ido embora, desistindo da empreitada de procurar ladrões no mato. As pessoas tinham voltado para casa e não se via ninguém por perto. Ficamos com muito medo.

Tomamos o caminho mais longo, pelas baixadas. Toda sombra que víamos e todos os ruídos que ouvíamos nos assustavam. Levamos quase uma hora para chegar as nossas casas. Cada um foi deixando o outro em sua varanda, até que ficamos eu e meu irmão sozinhos. Já não estávamos longe. O latido do nosso cachorro, que sempre corria ao nosso encontro, nos alegrou profundamente. Caminhamos apressados e com um pouco de medo ainda. Nossa mãe, como sempre, nos esperava acordada.

Que bom que os ladrões não tinham chegado ali. Contamos a história a ela e depois fomos dormir. Só acordamos no outro dia com o barulho da panela de pressão que vinha da cozinha. Era o mesmo barulho das sirenes dos carros policiais. Mas, peguei no sono outra vez. Era sábado

Ronaldo Sérgio

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