Deus, colecionador de sapatos!

Beleza infinita3

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Caminhava pela cidade, atravessando ruas, esbarrando as pessoas, olhando os carros e desviando-me das crianças, quando vi algo que muitos considerariam como lixo, como coisa insignificante. Num dos cruzamentos do centro havia um par de sapatos abandonado. Era azul com listras e cadarços brancos. Parecia ainda conservar o calor dos pés que o tinham carregado.

Era um caminho e uma história que estavam ficando ali, jogados, esquecidos e desapercebidos. Isolados do mundo, aqueles sapatos eram uma metáfora da realidade. Eram sinais de contradição. Janelas fechadas para o futuro que poderiam ser abertas. Aqueles sapatos escondiam desejos, sonhos e lutas vividos ou não. Traziam marcas de uma pessoa e de um coração muitas vezes ferido e magoado. Mas, em suas cores eu vislumbrava amor e a alegria, a paz e a esperança. Momentos intensos de vida.

Que bom se tivéssemos a ousadia de procurar pelo dono e de lhe dizer que abandonar sapatos é um crime. Um crime contra si mesmo. Um crime contra sua própria história. Porque sapatos são mais do que utensílios que se tornam velhos e que devem ser jogados fora. Eles são como fundamentos dos sonhos, da liberdade e da felicidade. São mais do que um simples revestimento para os pés. Trazem consigo a possibilidade da beleza e da fartura de horizontes. São protetores da alma e do coração.

Sapatos se tornam velhos sim, como nossos sentimentos. Quanto mais velhos, mais valiosos e mais próximos de nós. Nem os notamos. Vivemos como se eles não existissem e, no entanto, estão sempre ali como alicerce das nossas boas ou más ações. Quando são novos, eles incomodam. Muitas vezes ferem nossos pés. Vivemos uma luta até nos redermos mutuamente. Pois, construir caminhos sem eles é impossível.

Sapatos não deveriam ser jogados fora, mas cremados como partes de nós. Pois, eles são desenhos que enfeitam os pés e a alma. Com eles tocamos o mundo. Com eles encontramos as pessoas. Sentimos o peso do corpo e a leveza do coração. Eles nos protegem do frio, do perigo da estrada, do fogo e dos espilhos. Sapatos sintetizam vidas. Cutucam nosso espírito, quando algo está errado.

Se Deus existe, então ele é um colecionador de sapatos. De histórias humanas. Se ele tiver uma casa, nesta casa ele terá um quarto para cada um de nós e ali neste quarto ele guardará todos os nossos momentos e, com eles, alguns sapatos. Certamente, se assim o for, Deus ficará horas e horas contemplando-os. Pensando em nossa vida, em nossos passos. Se for como um pai e uma mãe que ensinam seus filhos a andar e veem os seus primeiros passos, ele se alegrará, pois se lembrará do tempo em que nos segurava pela mão, até que aprendemos a andar sozinhos. Quantas vezes, ao contemplá-los, Ele não chorará de dor por ver nossos sofrimentos ou por ver que tomamos o caminho errado.

Sapatos têm memórias. Na casa de Deus eles terão alma. Quando estivermos lá, Ele nos mostrará suas relíquias: nossos sapatos. Nossas pegadas, nosso coração, nossa vida. Assim, veremos tudo face a face. Veremos por onde andamos, como andamos e porque andamos. Veremos nossa vida como um grande mosaico de passos entrelaçados. Passos descompassados, vacilantes, dançarinos, felizes, sofridos, risonhos, livres, amorosos….

Ronaldo Sérgio

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