Na praça – I

Conto1

Não falavam coisa com coisa. Estavam apenas fazendo graça e contando piadas. A água suja da fonte não lhes chamava a atenção. Não era isso que os atraía a ficar na praça. Amigos já há alguns anos, adoravam gastar um tempo bebendo cerveja e falando besteiras.
__ Melhor cerveja? Hahaha a minha predileta é a Bohemia. E não tem discussão. Sempre a achei a melhor, mas é muito cara, claro.
E os outros diziam também, com a boca cheia, de seus gostos, fazendo uma lista das melhores cervejas que já tinham bebido como a Heineken, a Quilmes Cristal, a Erdinger Weiss e a Guinness. Porém, hoje todos bebiam Skol e não reclamavam.
__ Vocês vão ao Rodeio em Jacutinga?, perguntou Ricardo, sempre cortando a conversa. Adorava fazer isto e muitas vezes de propósito.
__ Rapaz! Não sei, disse Julio. Quando é que é isso mesmo?
E o bate-papo mudou completamente de assunto.
__ Mês que vem. Começa dia 13, eu acho.
__ Estou pensando. Fiquei sabendo que no sábado o show é do Zezé Di Camargo e Luciano. Completou Lucio, o mais tímido do grupo e o menos experiente quando se fala em ir a uma festa assim.
__ Sério? Dizem que o show deles é bom. E quanto é o ingresso, 30 reais?, perguntou Marquinhos.
__ Que nada, é apenas 25 contos. Tá muito barato
__ Oh é? De Inconfidentes era 30. Pode ser que dê pra eu ir, continuou Marquinhos.
__ Vamos todos? Vai ser bom. Mulherada lá. Disse Lucio.
__ Olha ai gente, o menino tá ficando esperto. Não era assim não, saidinho. Agora tá até indo pra gandaia.
Todos riram do que Ricardo disse. Era verdade, Lucio sempre foi bastante acanhado e todos sabiam disso. Mas, nas últimas semanas ele parecia ter mudado da água para o vinho. Estava mais solto, falava mais besteiras e xingava sem mais nem menos. Em casa todos notaram a mudança de caráter. Tornou-se mais agressivo, exigente com suas roupas, queria maior privacidade e ficava ouvindo outros tipos de música. Ele adorava sertanejo romântico, aquelas músicas bem melosas sobre amor proibido e platônico. Passou a ouvir rock e reggae. Conversava pouco com os pais. Saía sem avisar e voltava tarde da noite. Em duas semanas voltou três vezes embriagado.
A mãe, que já tinha percebido e comentado com o pai, estava bastante preocupada com as mudanças de comportamento do filho. Sem sucesso, ela tentava conversar com ele, mas ele se mostrava sempre arredio e bastante aguerrido. O irmão mais velho suspeitava que ele estivesse se metendo com amizades perigosas, que mexem com drogas e adoram bebidas pesadas. Não tinha certeza, por isso não mencionava nada com a mãe, para livrá-la de preocupações desnecessárias.
__ E a Mônica, Lucio? Te vi de lero com ela. E aí, vai contar ou não? perguntou Ricardo dando um tapinha nas costa do amigo que, um pouco acanhado, soltou uma risada a contragosto. Fez-se um silêncio entre eles, no entanto, Lucio não disse nada, pensando apenas no ocorrido. Ninguém percebeu, mas teve uma vontade tremenda de chorar. Um calor incomum atravessou-lhe o corpo e, por um instante, não via amigos, nem praça, nem o copo de cerveja que segurava na mão. Nada. Sentiu um amargo na boca e o coração esbarrar nas costelas magras procurando sangue.
__ Ah, é assim agora? Sai e nem fala nada com os amigos? Conta aí nem, Lucio. Saiu com a gata ou não? brincou Marquinhos também.
Rindo e bebendo, todos olharam-no com a curiosidade dos jovens que estão aprendendo a beijar ou que gostariam de beijar, mas não tiveram oportunidade ainda. Aquele olhar sacana de menino que procura uma revista porno e, escondido, vai ver como é o corpo das meninas e como se transa. Coisa de instante que Lucio nem percebeu, porque estava ensimesmado jogando mais uma latinha de cerveja no lixo.
Atípica foi a reação do Julio que, sem mais nem menos, foi ao bar, alegando ter que ir ao banheiro. Ninguém notou nada, fechou a cara e saiu porque não queria participar dessa conversa tola.
__ Malandro ele nem? completou Ricardo, ficando em pé. Já estava cansado do banco da praça.
Para não lhes contar a verdade, Lucio pegou mais uma latinha, abriu e disse apenas que estava passando por lá aquele momento e que ela queria saber se ele havia visto o seu irmãozinho.
Não acreditaram nele e o chamaram de mentiroso. Ricardo disse até tê-lo visto sair com ela da choperia naquela noite. Mas, deixaram pra lá a conversa, riram mais um vez e continuaram a beber, falando agora sobre futebol.
Lucio estava longe, pensando em Mônica. Fazia comentários sobre o Corinthians, seu time do coração, mas o filme que via se chamava Mônica. O primeiro beijo que deram três semanas atrás, aquele esbarrar de seus corpos próximos um do outro. O cheiro do perfume dela, seus cabelos deslizando entre seus dedos. Seus seios firmes, um pouco tesos, tocando o seu peito. Seus lábios molhados cheios de desejos intensos e o esfregar-se um no outro, tudo isso o distraía tanto que ele tomou sua latinha de cerveja quase num gole só e, assim de repente, despediu-se dos amigos e foi pra casa.
Quando Julio voltou trazendo mais cerveja, Lucio já tinha virado a esquina e desaparecido. Perguntou por perguntar onde ele tinha ido e os outros disseram que fora embora. Sem dar atenção ao jeito estranho do Julio reagir, olhar e sorrir, abriram as novas latinhas e continuaram o bate-papo até tarde da noite.
Lucio caminhava pensativo, triste e bastante revoltado. Desde o primeiro encontro não teve mais oportunidade de ver Mônica novamente. Ela o evitava, ele sentia. Não ligava e nem estava naqueles lugares comuns onde ele sempre a via. Ele sabia que algo tinha acontecido, que ela não queria mais nada com ele e que tudo tinha sido somente um caso.

…. o conto continua …

Ronaldo Sérgio

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