Catando risadas de dor!

“Mais é um palerma mesmo, um monte d’bosta.”
Ouviu assim que caiu,
fazendo um barulhão do caralho,
bem mais assustado do que o cavalo,
assombrado pela fumaça na beira da estrada.
Sujo de terra, desbaratinado,
batendo com as mãos levantando pó,
com as pernas tremendo, desconsolado.
Era de medo do pai gritando,
não o acudindo, nem se importando.

Não chorou, calou-se aviltado na dor,
sentiu-se um verme, destruído.
Como um cachorro chagado coloca os rabos entre as pernas,
pegou o cavalo pelas rédeas e saiu.
Doía mais a alma, o ego e o coração,
os arranhões sumiriam em breve,
mas o som daquela voz seria seu pão,
pão que se multiplicaria lá dentro,
mofando lá dentro dele, como um castigo do cão .

Era sua cangalha
escangalhando-lhe por dentro,
cheia… cheia até a boca.

A culpa não foi do cavalo,
nem do primo com sua mania estranha,
de acender fogo na beira da estrada.
“O culpado foi deus. Sim, deus”,
matutava subindo a serra.
Andava catando as risadas dos parentes,
amassando, rasgando, devorando os risos deles,
e a vergonha por ter caído,
sentindo-se um canalha, um inútil.
Como disse o pai, um bosta.

Ronaldo Sérgio

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