Eta vida dos infernos!

Eta vida dos infernos essa,
catar pinhão pelo mato,
chega a dar dor nas costas
a encher o saco da gente.
Pior inda é ficar ouvindo ladainha:
“Cata direito menino, presta atenção!”

Pr’os diabos com essa catança,
por hoje ‘tá bom,
se não tiver também, que se dane,
vá pr’os caralho, pinhão não é pão,
nem doce, só vida acabrunhada,
pinhão é dor,
é deus abusando da gente.

Estou cansado desse mato,
do capim roçando minhas pernas,
do sereno molhando minhas roupas,
do saco sujo que carrego,
quase cheio, quase se rasgando de velho,
eu catador de sonhos,
catador de desejos,
de pinhão do mato, dos infernos.

Que mundo tinha sido esse?
Levando a vida na caleça dos meus pais,
escolhendo a escolha deles,
o comando, o sim, o não, vai e vem.
Catar pinhão era uma ordem,
porque menino só tem desordem interna,
coisa atrapalhada na cabeça.
“Mantê-lo ocupado pra não pensar besteira,
esse abrutalhado por natureza”.

Catar pinhão foi um longo tempo,
um vale de dor e de ruindade minha,
não parecia, era castigo mesmo.
Pinhão do mato, dos quintos dos infernos.
Meus desejos ficaram lá
largados no mato,
pois viver era catar até ficar puro,
puro dos próprios caprichos.
Coisa defícil de se ver
em alguém alambazado como eu,
como pinhão caído no mato,
no meio da selva, perdido.

Ronaldo Sérgio

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