Briga entre irmãos!

“Não quero mais te ver, nunca mais”,
foi o que disse ao sair de casa.
E saiu revirando essas palavras mil vezes na mente,
respirando o ar quente daquela tarde,
arrancando a bicicleta do lugar.

Sentia o coração sangrar,
Era como se estivesse, por livre capricho seu,
derrubado uma camisa branca,
limpa, embora molhada, sobre a estrada empoeirada.
Deveras, estivesse mais seca ainda,
a estrada, o peito, as palavras que dissera,
era o seu desejo,
para que se sujasse mais.

A velha bicicleta, outrora recostada ao paiol,
empurrava-o ladeira abaixo,
nem olhava pra trás,
deixando-se levar por ela, pelo caminho,
pela bicicleta, pela tarde ensolarada, “quem dera”,
pela crua desolação que sentia agora
ao sair de casa sem promessas,
como uma fera devorando uma presa,
rasgando a raiva, a dor e o amor
em fiapos, em fiapos de nada.

A irmã, triste coitada e arrependida,
olhou pela janela, olhos pequenos,
via o irmão sumir atrás do morro,
consternado, cortejando a dor.
Ía com ele, sem que soubesse que ía indo
sentada na garupa daquelas palavras.
Mas ali, atrás da janela, como a distância,
aumentava a culpa dela e a vontade de gritar:
“Me perdoa, foi sem querer, gosto de você”.
Mas quem gritava era a mãe, lá fora:
“toma conta do arroz pra mim, já volto.”

Abriu a tampa da panela
Como o vapor, sairam lágrimas de seus olhos,
Chorou…até o tempo ficar maduro
depois não chorou mais,
já tinha crescido, era gente grande.
E o irmão também,
que nunca mais voltou.

Ronaldo Sérgio

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