Maltrapilho

Sôfrego e abatido pelo caminho
puxava o ar longamente.
Às vezes, retia
no mesmo ritmo dos pensamentos
estrada afora, passo a passo ia.
Controlava a direção da luz
pestanejando lentamente a cada instante.
Quando via alguém se aproximar,
arrepios sentia,
o andarilho sem rumo.

Faltava-lhe nada ao lado da esposa.
Tinha filho e filhas e um canto para defecar.
Era gente entre tantas com sintomas selvagens,
mas controlava na voz, no olhar e nas palavras.
Remedava a brisa, imitava as pessoas,
brincalhão que fazia chorar.
Até a enchente de barro, na escuridão da noite,
levar consigo seus entes amados
sua paz, sua vida, sua morte e seu deus.

Depois disso, tudo se tornou pequeno demais,
sem sentido.
A casa com pessoas invisíveis,
um cachorro que atordoava ao latir
crianças correndo lá fora, pulando, gritando,
nada disso mais lhe agradava.
Nem apagava a voz,
da esposa amada e dos filhos.
Seu desejo, de grande, o transtornava.
Saiu pelo mundo, roendo unha, roendo o desejo
e nunca mais voltou.

Nunca mais voltou, nem pra si e nem pro mundo,
foi coroar os dias com suas loucuras,
para tumultuar a mente, bagunçando as lembranças,
e não pensar na beleza da vida destruída.
Caminhava, sorrindo, sem rumo,
maltrapilho de espírito,
maltrapilho de deus
maltrapilho do mundo.

Injusto ah, foi tempo.
Injusto com tudo, com a vida.
Caminhava chacoalhando a cabeça
expulsando os barulhos do passado,
como todo andarilho.

Ronaldo Sérgio

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