Palavras violadas

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Foi assim no fim da noite, pouco antes da madrugada nascer, quando um turbilhão de pensamentos me assaltou a mente. Minha esposa já estava deitada, minha filha dormia como um anjo no berço. Não me contive, apenas freei alguns sentimentos como a angústia e a raiva, misturados com a minha arrogância e o meu descaso pelo que vejo, ouço e leio por ai.

Abri as comportas de modo que as palavras pudessem brotar e a primeira que espirrou contra meus olhos, enchendo-os de entulhos, foi a palavra deus. Palavra usada em expressões como ‘ao deus dará’, ‘oh meu deus’, ‘deus me livre’, ‘vá com deus’… Não consigo ver peso, pega. Não consigo ver conteúdo, apenas uma semântica vazia e semiótica infeliz… Palavra usada de modo lamentável tanto nos bares quanto nas igrejas. Palavra que não salva ninguém. Que joga o ser humano ainda mais fundo no poço do individualismo, da ganância e da discórdia. Que virou empresa, grupo comercial, marketing. Palavra usada como uma varinha de condão, como uma poção mágica capaz de solucionar todos os problemas do mundo. Palavra esvaziada da pessoa a que se refere. Nome próprio esquecido. Pessoa transformada num ser etéreo, ser todo poderoso e encantado.

A segunda, que amargou tremendamente a minha boca fazendo-me quase cuspir sangue, foi a palavra amor. Corroída por dentro como aquelas madeiras podres, cheias de buracos e rastros de cupim. Muitos divagam ao usá-la, vivem uma fantasia do momento. Outros contorcem a realidade, tentam enganar-se a si mesmos falando de um sentimento irreal, ideal, torto como as próprias pernas. Amor que não existe senão nos contos de fada, infantilizado, caduco, destroçado. Nem platônico é. Parece-se mais com as comuns sensações de fome e sede a serem saciadas. Nada que brote da mente, do pensamento, de um projeto de vida. Amor desligado do mundo, da casa, do ethos. Satisfatório enquanto dure. Descartável e conveniente. Vendido e comprado nos butiquins. Muitas vezes suprafaturado. Cantado sem legenda nos shouws e espetáculos e pela tv. Decorado e declamado sem nenhum pudor. Legal, maneiro e da hora, amigo das ruas. Amor sem promessas, compromissos, sofrimentos e dor. Sem vida.

Quis parar de escrever, pois estava ficando monótono, talvez muito crítico e pessimista; quando a terceira palavra foi saindo prensada, dolorida, cheia de sangue, como um bezerro nascendo devagar e a gente vê primeiro as patas. Felicidade… Palavra que não deveria mais existir no vocabulário se fosse realidade. Transformaram-na em prêmio, dinheiro, riqueza, bem-estar, beleza, luxo, festa, fartura, sucesso, fama, moda…. Semântica herdada do iluminismo e do idealismo do século XVIII. Definida pelos seus contrários. Mas, felicidade não é o oposto de tristeza, nem de doença, nem de pobreza, nem de falta, nem de dor, nem de solidão, nem de perda, nem de nada que possa ser negativo. Felicidade sem isso é desumana, é pior do que não tê-la. Palavra estuprada pelo capitalismo. Abusada pelos ciências modernas. Usada como se fosse papel higiênico.

Bom! Já é madrugada. A minha talvez não seja como a sua, nem a sua como a minha. Nem o significado do mundo, nem o significado das palavras que tenho à mão. Preciso esculpí-las novamente, as três. Contemplá-las desde o nascer do sol. E vivê-las em suas verdadeiras significâncias.

Ronaldo Sérgio

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16 comentários em “Palavras violadas

  1. MariaLDário disse:

    Deus, amor e felicidade, três palavras ‘estupradas’. Vou ler a crônica várias vezes ainda. Gostei muito, Ronaldo Sérgio.

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  2. KAMBAMI disse:

    Em um poema canção digo: “O mundo, o tempo, o espaço, terras de fe e terror, não sei como dou um passo, sem pisar em desamor,…
    Paz, fe, amor, o que e isso? Parece filme de ficção, na paz e na fe, encontro as guerras, amor só em televisao…”
    Aprendi que existem duas formas de falar, uma de fato estuprada da boca pra fora, outra bem rara de dentro da alma do sentir no coração. 😉

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  3. jomabastos disse:

    Excelente texto!

    “Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida.”
    (Fernando Pessoa)

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  4. Paulo Vasco disse:

    Gostei.
    Ronaldo recebeste o comentário onde indico o link do A Três Mãos onde ficou a tua poesia? É que ao fazer “enviar” parece que nada acontece 😦 Caso haja algum problema, publicarei no meu, em http://ondenaoestou.blogs.sapo.pt
    Abraço!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Pelo amor de Deus
    Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
    Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
    Abandonado pelo amor de Deus

    (chico)

    (Viu, nem tudo é em vão)

    Curtido por 2 pessoas

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