A Biga – A alma guerreira

Fugindo um pouco do meu estilo, resolvi escrever uma poesia crítica inspirada na teoria da alma de Platão e em seu mito A Biga, o carro de guerra. Espero que os meus leitores tenham fôlego para chegar até ao fim.

Foto do google

 

“Alma de porco”,
disse o meu amigo
voltando-se para mim
quase vomitando sobre o lodo
do chiqueiro imundo
que estão fazendo do nosso país.

Ao redor do chiqueiro
ora olhando os porcos ora o meu amigo,
lembrei-me de Platão
de sua teoria da alma
das sombras que nos assustam
que não são nada e acusam
que vivemos na ilusão
com migalhas e sombras
porque não usamos a razão

Da alma a parte mais forte
é aquela que pensa e alcança
as formas verdadeiras das coisas
as ideias que a levam longe
pro mundo sem falsidade
sem odores desagradáveis,
sem corrupção e suborno,
sem injustiça e sem fome
mundo da luz e bom.

Ali perto dos porcos,
pensei na alma pensante
que como um bom cocheiro
dirige e dá sentido infindo
à carruagem de dois cavalos
selvagens por natureza
nunca domados, nunca.

Um era o cavalo preto
e o outro o cavalo branco
correndo por todo canto
espantados pela polícia
como se fossem vândalos.
Postos sob cangas
carroças e cangueiros sujos
carregam o fardo duro
de ser o que são, cavalos.
Esquecidos de suas forças
da verdadeira grandeza
minguam deitados
em berço esplêndido
como cavalos inautênticos.

O cavalo branco era lindo
de alma sempre irascível
de coração bravo e impetuoso
que levava à coragem.
Era o gigante de natureza,
belo, forte, impávido colosso,
seu futuro era a grandeza.
Fora, sem mais, corrompido
a ter vontades tola e tosca
de forças involuntárias
que destroem e fazem a guerra.
Mas, nunca indignado,
como animal maltratado
sem razão perdeu sentido
de ser o cavalo guerreiro.

O outro era o cavalo preto
a alma concupiscente
de apetites assombrosos
sentimentos do baixo ventre
das entranhas que movem corpos
que vivem pelo puro prazer
em satisfazer seus impulsos.
Alma imatura e sôfrega
foi adestrada nos campos lindos
nos bosques que têm mais vida,
mas sem vida por não pensar tanto.
Estimulada aos prazeres
também perdeu o sentido
seus risonhos e lindos sonhos
de ser iluminado pelo sol
o sol do novo mundo.

De repente soltei risadas
ali ao redor do chiqueiro.
Ria dos porcos? Não.
Ria da alma de porco
que é o meu povo
e disse ao meu amigo
que lavava a porcaria toda:
“no mundo em que vivemos
com pessoas pensando com a bunda
com a boca cheia de grama
com as continhas no banco
o carro e a casa de luxo
alma de porco é pouco”.

Jogando a lavagem,
agora ele disse, o meu amigo:
“povo sem lembranças dos roubos
esquecido do verdadeiro rosto
colorido pela televisão
vivendo com migalhas de nada
daqueles que lhe jogam o pão
no chiqueiro fazendo festa
como no tempo de Nero
mestre da enganação
do povo sem alma pensante
com alma de porco
implorando lavagem
o resto do resto do resto, não”.

Não dá mais.
Precisamos cultivar a alma pensante
crítica, não alucinante.
Que conhece as formas verdadeiras
o que é essencial e reto
justo e bom para todos.
A alma que pensa
que seja solo, que seja mãe,
regendo como um bom cocheiro
os cavalos preto e branco
dando-lhes a honra
de ser o que são, heróis da pátria.
Não fantoches de votação.

Chega de restos… de migalhas
chega do mundo das sombras e coisinhas
chega de ficar na platéia do chacrinha,
esquecidos da corrupção.

Deixemos crescer a alma forte
a razão que dá sentido à vida
que sabe de onde vêm as falcatruas
e conhece as formas do bem
que não se deixa levar pelos cavalos
estimulados por todo lado
a ser apenas cavalos
que gozam hoje das delícias
que amanhã lhes amargarão.
Cultivemos a alma de guerreiros
que não vivem de um só embalo
mas pensam… e pensam
sabendo para onde vão:
Ó Pátria amada…

Ronaldo Sérgio

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5 comentários em “A Biga – A alma guerreira

  1. KAMBAMI disse:

    E os porcos continuam e deliciarem-se da pátria pariu, aquela mesma do vinte centavos que hoje se pergunta de quem assumiu.
    Não muda o cheiro, não muda o povo, não muda o porco, apenas mudam-se o chiqueiro. 😉

    Curtido por 2 pessoas

  2. jomabastos disse:

    “no mundo em que vivemos
    com pessoas pensando com a bunda
    com a boca cheia de grama
    com as continhas no banco
    o carro e a casa de luxo
    alma de porco é pouco”.

    Esta é a porca realidade.

    Curtido por 3 pessoas

  3. Paulo Vasco disse:

    Muito bem adaptada à realidade (portuguesa, inclusive).

    Curtido por 1 pessoa

  4. Preciso ler sobre esse mito para compreender melhor a mensagem. De qualquer forma gostei do intertexto com o hino nacional.

    Curtido por 1 pessoa

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