Casas velhas!

Conto10

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Há dias em que vivo uma tragédia. Há outros marcados por revoluções de minh’alma. Ontem, de tardezinha, quando o sol já fraco ia sumindo no horizonte plano do Suriname, tive vontade de chorar. De chorar a perda do céu, a perda da vida, a perda da dor, a perda da morte e a perda de mim. Não rezava e nem filosofava. Não pensei em Deus, nem em minha esposa e filha e nem nos homens. Olhava… como se olhar bastasse! Contemplava uma casa velha. Viver neste momento sem ela, seria o fim. Tinha se tornado meu sangue, meu ar, minha alma fora de mim, meu ser ao avesso postado a minha frente.

Tinha portas e janelas trincadas, mas não estava abandonada. Feita a mão, com martelo e prego, serrote e formão. Feita com cuspe. Com suor e sangue. Parecia ter alma. Tinha a espessura humana e o calor do céu. Era um misto de corpo e de espírito jogados no mundo. Criatura de um desejo e de uma vontade. Obra. Obra de arte.

Adoro casas velhas, porque têm memórias. Quanto mais velhas mais cheias de histórias e de profundidades. Quantas palavras coladas nas paredes querendo gritar, tocar o ser adormecido em mim? Quantas gasturas no olhar, vida e morte, sorrisos e amor?

Por fora e por dentro não existe distância como as esquizofrenias minhas e os tormentos dos meus desejos contraditórios. Velhas por dentro e por fora, são como um caminho cheio de surpresas. Quando estou perto ou entro nestas casas, é como se o ser desgarrado de meu corpo se virasse para mim e perguntasse: onde estávamos?

Em lugar nenhum. Em algum lugar da alma humana. Em mim mesmo. Estou onde sempre deveria estar, na minha velha agonia de ter que deixá-la. Partir…. porque outras profundidades da vida também haverão de me ater a elas e guardar resquícios de meu eu ficando velho.

Ronaldo Sérgio

 

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16 comentários em “Casas velhas!

  1. KAMBAMI disse:

    Sabe Ronaldo, o próprio fato da imaginação/construção/idealização já faz da “casa velha” algo de história, logo penso eu, toda casa já nasce velha, velha no desejo, na memória, nos momentos de dificuldades e momentos de glórias, enfim é como bem disse com cuspe, com sangue e suor, contemplar a criação de cada detalhe, cada prego, no silencio das paredes, ela a casa se ergue e guarda dentro de si todo segredo e só revela a quem a sabe ouvir.
    Gostei de saber que consegue ouvir as construções, sou construtor e por elas nutro paixões. 😉

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  2. A casa como metáfora é sempre algo impressionante. Construções, demolições, reformas. A vida da gente é uma casa sendo feita.

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  3. Tina Zani disse:

    Adorei. O post, as palavras, o site, a sensibilidade…

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  4. Gostei demais de passar por aqui e de cara, vislumbrar sua “casa velha”. Identificação total!
    Belo e sensível texto!

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  5. eu51 disse:

    obrigado pela visita aos meus blogs https://eu51df.wordpress.com/ https://lendasefendas.wordpress.com/ faltou mais um blog que espero pela sua visita estou seguindo você agora meu outro blog é https://wordpresdotcomdotcom.wordpress.com/

    Curtido por 1 pessoa

  6. Chronosfer disse:

    Obrigado pela presença e leitura. Um passeio pelo Rancho e encontro algo que me fascina: memórias. “Casas velhas têm memórias”. Gostei muito. Meu abraço.

    Curtido por 2 pessoas

  7. Reblogged this on ALMA DE POETA and commented:
    Gosto de casas velhas!

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