Gente mal esculpida

Conto24

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Alguns segundos de silêncio, um vácuo no tempo e os gritos do valentão encheram o bar: “vai trabalhar vagabundo”. Quase caiu quando levou o chute na bunda, ouvindo ainda outros berros “sai daqui vadio, ninguém tem dinheiro aqui não”.

Sequer disse uma palavra, saiu de cabeça baixa, estilo estropiado, mal vestido e sujo. Infantis, todos riram como se tal cena fosse a coisa mais engraçada do mundo. O valentão também riu de sua proeza, brincando com a tragédia alheia. Fazendo da dor do outro seu gozo. Ocupados demais com as feituras da vida, o vozerio continuou, com o barulho na mesa, o ruído dos copos e os palavrões sem medida dos que jogavam e bebiam.

O dono do bar achou ótimo, embora não tivesse pedido ao valentão para expulsar o andarilho. Claro, valentões não precisam se justificar antecipadamente. Eles compilam suas vidas colecionando vitórias que funcionam como se fossem fundamentos de suas identidades. Sem isso, eles se desmoronariam. Não seriam ninguém.

O andarilho seguiu caminho, com seu saco de bugigangas nos ombros. Não se atreveu a voltar e nem a se aproximar de um outro bar. Sumiu atrás da curva da estrada. Nome ele não tinha. Tinha coisas consigo. Era rico por dentro. Trazia na alma lembranças de ouro e diamantes preciosos. Tinha perdido o trem. Tinha perdido o enredo da existência. E no vai e vem das lutas interiores, descobriu o mundo ao avesso. Pessoas ao avesso. Brutos como os valentões. Gente mal esculpida.

Era tardezinha e seus pés formigavam sobre o asfalto já morno. Olhava longe, subindo o morro pela rodovia cheia de curvas. Encurvado pela dor, pela certeza do nada à sua frente. Mesmo assim, sorria. Não era o sorriso ao avesso, como dos homens no bar. Sorria para o céu azul prateado, para o vento fresco da tarde, para os campos verdes ao longo do caminho, para os bambuzais, as árvores, os pássaros cantando sobre os mourões das cercas de arame… sorria para Deus que parecia existir ali à sua frente como um abridor de caminhos.

Os homens do bar tinham se esquecido disso. Viviam invertendo a vida. Desenrolando o novelo e enrevesando o tecido da existência. Pareciam roupas ao avesso. E ficariam assim, excluídos do sol. Fechados para o caminho, mendigando um gole de pinga ou um copo de cerveja. Enquanto isso, o andarilho se fartava das porções do mundo. Tinha fome, sim. Tinha sede.

Mas, ele era por fora o que era por dentro. Um só e o mesmo. Por isso, o constrangimento dos saciados de tudo ao vê-lo passar e pedir. Sua face machucava-lhes a alma. Destorcia o torcido. Desavessava o avesso. Humanizava o desumano. E isso doía demais. Melhor botá-lo pra correr e ficar “em paz” com a máscara retocada. Beber para se dopar. Anestesiar o corpo para que a alma durma.

Ronaldo Sérgio

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12 comentários em “Gente mal esculpida

  1. Me lembrou uma canção antiga, chamada :”o velho ateu”. Muito boa a crônica, bem muito

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  2. fagulhadeideias disse:

    E como tem gente mal esculpida neste mundo, pessoas ao avesso! Amei as definições.

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  3. vileite disse:

    Crônica perfeita e verdadeira ! Infelizmente , o mundo anda cheio de gente mal esculpida e sem sentimentos.

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  4. Tina Zani disse:

    Que jeito doce e sutil de falar verdades dolorosas. Lindo. Quantas vezes presenciamos pessoas mal esculpidas por aí… Espero estar me esculpindo cada vez melhor…

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  5. Que leitura gostosa de se ler. Muito bom mesmo! Parabens!

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