Sua única delícia era contar histórias

Velho1

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Pano de fundo era o sol segurando o céu. Algumas mechas de nuvens ao longe pareciam coladas atrás das orelhas dele. O poste de luz confiscava seus gestos, aguardava uma queda de repente. Nada acontecia. E o vento levava sua alma para longe, cada vez mais perto de si mesmo. As últimas gotas de orvalho ainda estavam sobre seus ombros. Cabelos espatifados pela brisa queriam varrer-lhe da mente a dor. Estava em pé.

Senti-me perplexo. Era um senhor de 80 anos, parado na minha frente. Mastigava sem parar. Parecia mastigar o mundo. Tinha apenas um dente já bem amarelado. Seu jeito de falar era como tecer curvas. Bordava horizontes, como a paisagem daquele dia. Às vezes, falava para si mesmo. Falava sem ouvir o tom da voz. Nem o eco ouvia.

O que lhe segurava em pé era a sua angústia. O sorriso dele me confundia. Dissera que tinha filhos por ai. Onde estavam ou moravam? Nem perguntei. Já tinha entendido. “Por ai…” era o resumo das palavras “não me pergunte, porque também não sei’. Morava numa cabana que se enchia d’água em tempos de chuva. Pagava aluguel. Não pediu nenhum trocado a mim. Apenas falava comigo naquela manhã linda de sábado. Economizar palavras não era o seu feitio. Contou histórias.

Estava em casa, certa vez, e fora chamado pela polícia. Intimação? Não, não! Fora chamado para tentar tirar a dor das costas de uma moça. Chorava de dor. Não tinha remédio que ajudasse. “Entrei na sala. Era uma jovem bonita. Pedi pra ela vestir a camisola. Moço!!!! Você nem imagina!? Nem tive tempo, ela deixou a roupa cair. (‘Mas não era pra ser na minha frente). Ma não é que a moça ‘tava sem calcinha…..”.

Tinha o jeito estranho, muito estranho de terminar suas histórias. De repente, parava e não dizia mais nada. Depois prosseguia. Era uma outra história.

“Uma vez me chamaram pra ajudar uma mulher grávida que estava com muitas dores nas costas. Estava com um barrigão. Precisava ver. Comecei a fazer massagem e, assim do nada, a moça deu um grito. Ai…! Levei um susto, o senhor nem sabe. E disse a ela: ‘não vai parir agora não hem?!….”.

Era o seu estilo. Tirar a dor dos outros. Narrar a vida pedaço por pedaço. Deixar o principal faltando. Jogava o passado lá na frente. Como se nunca tivesse grandes sonhos e nem grandes planos na vida. Nada sobrava, nada era artificial em suas palavras.

Seu corpo completava o oco de sua alma. Se caísse o sol naquela hora, saberia narrar o próximo amanhecer com a lua. Estava sempre abastecido do que haveria de vir. Esperava o ônibus para a cidade. Esperava os fatos se aproximarem dele. Era como se estivesse o tempo todo no passado. Comendo o que se passou. Vivendo dele. Tinha umas moedinhas na mão. Nada mais era necessário. Sua única delícia era contar histórias.

 

Ronaldo Sérgio

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7 comentários em “Sua única delícia era contar histórias

  1. Nossa, alguém que borda horizontes. Adorei

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  2. vileite disse:

    Lindo ! No fundo todos nós temos alguma “delícia para contarmos ou recordarmos !

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  3. Mariana Gouveia disse:

    Lindo!

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