Marteladas de não

Procurava uma bica d’água
balançando o corpo ao andar
Pisava com incerteza
e sem firmeza no olhar.
Falava enrolando a língua,
apressado e sem parar.
Era um senhor sem beleza,
baubuciando ao céu pra ajudar.

Não exitou em pisar o gramado
do jardim descuidado que havia,
onde ratos fugiam ao léu
da luz do sol que surgia.
Aproximou-se abismado
da bica d’água que via,
bebeu e olhou ao céu
no marasmo daquele dia.

Voltou a sentar-se no banco,
inquieto por ter que esperar.
Cortando os atalhos do horror
do espírito que não atura ficar
amarrado num tempo em branco.
Sem profundeza no olhar
revivia o primeiro terror
das auroras de seu lar.

De repente, ficou teso e disperso
consigo mesmo entretido,
fuçando as bagunças da mente
querendo encontrar sentido
no mundo sempre adverso,
às falcatruas do incontido
do incontido desejo premente,
ao silêncio abduzido.

E assim ficou horas e horas
sem conseguir tocar a alma,
vendo gente ao seu redor,
desconhecendo-se no trauma,
e nas dores desoladoras.
Ficou a ficar sem calma,
olhando para o corredor,
não via vivalma.

Era normal viver espatifado
como cacos de vidro pelo chão,
com o olhar desentranhado
quebrado com as marteladas de não.
E assim desde criança, instigado
a viver com resquícios do pão
do pão de não despenhado
sobre si, foi perdendo a razão.

Ronaldo Sérgio

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