A dor o fez assim

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Era um  vagão vazio. Cheirando a mofo. Carcomido pelas ferrugens. Bonito por fora. Grandioso. Janelas sem vidros. Denso estava o ar com a porta estreita aberta. Era um vagão de dor. Um borrão no tempo. Uma vaga.

Foi assim que se sentiu naquele instante. Como se tivesse sido jogado na frente de um vulto. Uma carcaça. Um trem velho. Correram as horas pela sua pele. Mas o tempo parado o angustiava. Nada. Estava ao pé do nada.

Vivia quase sempre pelas beiradas das horas. Catando pequenos restos que sobravam delas. Como em vagões isolados. Separados do todo. Empedernidos do odor das ocupações.

Atinha-se aos outros aos bocados. Em relações vagas. Espalhadas pelos cantos dos dias. Quase restos. Sobras de sua atenção. Amar era em blocos jogados aqui ou ali… descarrilados.

Filho do tempo. Enferrujado por dentro.  A dor o fez assim.  Vago… vazio… insatisfeito. Olhava os vagões do trem. Era sua alma esturricando ao sol, ali na sua frente.

 

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Ronaldo Sérgio

Pétalas do anoitecer

29.05.2016 - 1

 

Somente um dia. Deixe-me tentar. Apenas um dia. Dê-me um beijo e venha espalhar comigo essas pétalas.

Saíram…

À tardinha tudo é bem diferente. O amor anoitece. Belo e terno. Mas não dorme. Ama-se com a fibra do sol se pondo. Fica querendo deixar rastros. E deixa… sempre deixa.
Espalharam pétalas na entrada de casa. Brancas, vermelhas, amarelas, pequeninas e grandes. Eram lindas. Deixaram suas mão perfumadas. O olhar bonito. O coração aquecido.

Olharam-se.
__ Venha sentar-se, meu amor!

Esperavam. Com o cheiro doce e temperado do anoitecer ainda criança. A comida pronta e mesa feita. Eram seus amigos. Viriam para o jantar. Naquela noite. As pétalas brilhavam com a luz da varanda.

Viram… se olharam…
__ Nossa, que lindo!
__ Sempre cheios de carinho!

Nem bateram à porta. Já estava aberta. Tinham ouvido o barulho. Sentido o tempo deles. E ido ao seu encontro. Abraçaram-se… sobre as pétalas. Entraram…

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

À luz das lamparinas

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Viver à luz das lamparinas. Uma luz quente e firme, de um fogo que parece não se apagar. É mistério. Ao redor das chamas que não iluminam tudo. Que guardam as belezas da noite. É como ser luz e não ter luz. Flamas que são retratos. Frágeis como nós. Trazem consigo o essencial. Viver é na lentidão.

O pavio se queima. Nunca até o fim. A brisa da noite que o diga. Perfuma a sala, a cozinha, o quarto… nossa alma. Ali ao redor pode-se contar casos, ouvir histórias. As vozes estão mais livres do medo.

Sua luz vermelha nos conforta. Sua claridade misturada com a escuridão é o coração da casa. É de se ver. A lamparina traz a luz amiga da escuridão. O que nos assusta é a penumbra.

Sua luz tem cheiro. Dá fome na gente. Seu balanço dá sono. Dorme-se em paz. Sem medo do amanhã.

Com ela, o tempo parece estar tecido com fios sutis e eternos. A noite é noite. Somos o que somos. Não há fuga. Nem se prolonga o dia encurtando a noite. Sentado no banco brinca-se com caixinhas de fósforos. Ao redor da vida… vivendo.

 

Foto de todocauso

Ronaldo Sérgio

Jarras velhas

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Foto de Zé Veloso

Teria um outro sorriso, se fosse um outro alguém. Os traços de sua face pareciam caminhos. Atraíam-me. Eram envolventes. Tentei caminhar por eles. Foi em vão. Foram eles que caminharam por mim. Passaram como um vendaval pelos textos de minha alma. Varreram toda pretensão e egoísmo. Limparam as suposições de dor que eu guardava. O sofrimento, a minha vanglória, sumiu.

O amor e a esperança moravam fora de mim, percebi. Habitavam entre aqueles traços da face dela. Eram ranchos em seus campos. Em mim, senti um vazio enorme. A penúria de sentido. Desconstruído por dentro. Carente de beleza. Beleza que ela deixou cair em minha alma. O amor e a esperança de um sorriso transformador. Sorriso que planta flores em jarras velhas. Trincadas.

Mostrou-me a casa onde morava. Nada de excesso nos quartos – nem na alma. Havia um riacho pequeno lá fora. Ouvíamos o barulho das águas, sentados na cozinha. Preparava o café…

Ronaldo Sérgio

Óculos quebrados

Conto23

Foto do google

A angústia é um trecho inóspito. Desertada do sentido que os desejos projetam. Assombra o olhar da gente. Faz ver o que dói. O que destroça por dentro. Abafa. Abre as tramelas da alma que, como janela batendo contra o vento, se fere a si mesma.
Viver é sofrer. Reunir retalhos a cada dia. Solitário e com o mínimo de luz. Neste mundo, como se existissem outros, não há outro caminho. Apressamo-nos a dar razão pra vida. Estudamos, nos casamos, temos filhos, fazemos faculdade, construímos casas… Damos sentido ao sem sentido. Forjamos a vida com a beleza. Com dinheiro compramos bem-estar. Mas, a vida é um poço vazio. Em si mesma não traz nada. O que achamos que é, é adereço, adorno. Apenas enfeite.
Depois de vivida, é como óculos quebrados. Colados com fita, feios. Ainda utilizáveis. Sentido? Sim, um sentido bruto. Tão grosseiro que fere. Para o outro que os vê no rosto da gente parece uma aberração. Mas, bruto é sentir-se brutalizado! Como se os mesmos óculos estragados fossem olhos perdidos. Furados. Doentios. À vista, assim no duro. Cru. Exigindo algum sentido. Vertendo lágrimas escondidas lavando o rosto. Aberrados, fora do padrão de beleza. Sem significado ao mundo. Sem valor. Valor que define sentido.
Estranho quando me olhava. Um senhor alto e de óculos. Algo o atraía, o deixava angustiado. Sua alma se debatia. Abafada não encontrava sentido no que via. Estava como que assombrado. Aberrado por dentro. Olhava e olhava, instigado a virar-se e a olhar de novo. Nada dizia. Por um instante ficou perdido num trecho inóspito. Se virava para um lado e, depois, para o outro. Entrava no bar e saía e olhava outra vez. Mas, estranho era o outro que, assim no soco, ali na rua esperando, despreocupado, trazia no rosto seus óculos quebrados…

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Rancho do Peregrino

 

Ronaldo Sérgio

Tudo é mundo

Conto23

Salvador Dali – O sonho

Depois de Freud toda interpretação dos sonhos acaba tendo um sabor psicanalítico. Os desejos, geralmente relacionados à sexualidade e incubados no inconsciente, vêm a tona como manifestações noturnas. As razões são simples. Enquanto dormimos nosso consciente também adormece perdendo forças e deixando brechas para o grito das enormes energias inconscientes.
Um desses gritos ouvi a noite passada. Não foi nem suave e nem medonho. Foi estranho apenas. Sonhei com os sons da terra, com as brincadeiras de deus, com as pessoas amarradas a um cordão sendo desenhadas pelo vento. Sonhei com os desejos dos bichos, com a alma das plantas e o cheiro dos riachos correndo entre as pedras. Sonhei com o beijo entre os povos, com o perfume da lua e o abraço dos céus. Sonhei com lugares longínquos rasgando meu peito e me enchendo de dor, com a pobreza e a fartura de vida, com o riso e o choro, com o sopro do agora que já se foi.
Sonhei com as janelas abertas, sem grades e alarmes, com as pedras quebradas dos corações e com a loucura inocente do amanhã. Sonhei com o fogo ardente, com o fim do dinheiro, da compra e da venda, com as mãos calejadas, o suor e o cansaço da alma órfã. Sonhei com a ciranda dos poderosos dançando descalços no terreiro de chão, com a beleza das rosas, com o canto das pétalas escorrendo entre os dedos e morrendo com o sol. Sonhei com a fuga dos anjos das imagens de gesso, com santos filhotes ainda indefesos, com o ninho da vida, com a morte e o mal. Sonhei com porteiras antigas de estradas de terra, com a força da lentidão, com o amor que espera olhando da janela seu bem fazer a curva e não voltar com o pão.
Sonhei com o abraço das pedras, com rodovias destruídas, com o canto das máquinas e o ruído dos corações, com gente insatisfeita sofrendo a delícia de sempre querer algo em vão. Sonhei com a luta divina pra sair das igrejas, dos templos de tejolos e cimento, frios e sem vida, lotados de gente vazia por dentro. Sonhei com rezas e preces sufocando a deus, com o direito divino de ter o que tem e de ser o que é, com sermões obscenos desnudando o céu. Sonhei com a chuva, a goteira em casa, com os sons da brisa e o orvalho da manhã, com pais separados, pais ajuntados, filhos trincados, sofrimento e dor.
Sonhei com os buracos na alma, com os desejos sem nome, com as horas que passam e passam e passam. Acordei com o grito e pensei em ti. Talvez o mesmo grito te acorde e veja, como vi, que fora de nós tudo é mundo. Mas dentro de nós a fartura de alma é tão grande que se derrama em sonhos.

Ronaldo Sérgio

Sua única delícia era contar histórias

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Foto do google

Pano de fundo era o sol segurando o céu. Algumas mechas de nuvens ao longe pareciam coladas atrás das orelhas dele. O poste de luz confiscava seus gestos, aguardava uma queda de repente. Nada acontecia. E o vento levava sua alma para longe, cada vez mais perto de si mesmo. As últimas gotas de orvalho ainda estavam sobre seus ombros. Cabelos espatifados pela brisa queriam varrer-lhe da mente a dor. Estava em pé.

Senti-me perplexo. Era um senhor de 80 anos, parado na minha frente. Mastigava sem parar. Parecia mastigar o mundo. Tinha apenas um dente já bem amarelado. Seu jeito de falar era como tecer curvas. Bordava horizontes, como a paisagem daquele dia. Às vezes, falava para si mesmo. Falava sem ouvir o tom da voz. Nem o eco ouvia.

O que lhe segurava em pé era a sua angústia. O sorriso dele me confundia. Dissera que tinha filhos por ai. Onde estavam ou moravam? Nem perguntei. Já tinha entendido. “Por ai…” era o resumo das palavras “não me pergunte, porque também não sei’. Morava numa cabana que se enchia d’água em tempos de chuva. Pagava aluguel. Não pediu nenhum trocado a mim. Apenas falava comigo naquela manhã linda de sábado. Economizar palavras não era o seu feitio. Contou histórias.

Estava em casa, certa vez, e fora chamado pela polícia. Intimação? Não, não! Fora chamado para tentar tirar a dor das costas de uma moça. Chorava de dor. Não tinha remédio que ajudasse. “Entrei na sala. Era uma jovem bonita. Pedi pra ela vestir a camisola. Moço!!!! Você nem imagina!? Nem tive tempo, ela deixou a roupa cair. (‘Mas não era pra ser na minha frente). Ma não é que a moça ‘tava sem calcinha…..”.

Tinha o jeito estranho, muito estranho de terminar suas histórias. De repente, parava e não dizia mais nada. Depois prosseguia. Era uma outra história.

“Uma vez me chamaram pra ajudar uma mulher grávida que estava com muitas dores nas costas. Estava com um barrigão. Precisava ver. Comecei a fazer massagem e, assim do nada, a moça deu um grito. Ai…! Levei um susto, o senhor nem sabe. E disse a ela: ‘não vai parir agora não hem?!….”.

Era o seu estilo. Tirar a dor dos outros. Narrar a vida pedaço por pedaço. Deixar o principal faltando. Jogava o passado lá na frente. Como se nunca tivesse grandes sonhos e nem grandes planos na vida. Nada sobrava, nada era artificial em suas palavras.

Seu corpo completava o oco de sua alma. Se caísse o sol naquela hora, saberia narrar o próximo amanhecer com a lua. Estava sempre abastecido do que haveria de vir. Esperava o ônibus para a cidade. Esperava os fatos se aproximarem dele. Era como se estivesse o tempo todo no passado. Comendo o que se passou. Vivendo dele. Tinha umas moedinhas na mão. Nada mais era necessário. Sua única delícia era contar histórias.

 

Ronaldo Sérgio