Nada como recomeçar colocando Deus no fogo!

Recomeço1

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Nada como recomeçar pensando. Este não é apenas meu questionamento, mas dos filósofos Hume, Kant, Nietzsche e outros.

Se há um Deus, necessariamente ele deve ser perfeito, onipotente, totalmente bom e saber de todas as coisas.
Se Deus é totalmente bom, por que há tanto mal no mundo?
Se Deus sabe de todas as coisas, por que permite que o mal aconteça?
Se Deus é onipotente, por que não aniquila todo o mal?
Se Deus é bom e, no entanto, deixa que o mal nos acometa, então trata-se de um Deus de más intenções. Portanto, não é Deus.
Se Deus sabe de todas as coisas e do mal que virá a acontecer e, no entanto, não o evita, é como um pai que deixa o filho se estrebuchar. Portanto, também não é Deus.
Se Deus é onipotente, mas não tem o poder para aniquilar o mal, então trata-se de um falso Deus.
Portanto: se o mal existe (todos nós já o experimentamos de uma forma ou de outra), Deus não pode existir.

Enquanto houver o mal no mundo, a existência de Deus estará questionada.

Na história da teologia e da filosofia houveram muitas respostas a estas questões como a teoria do livre-arbítrio, a teoria da pedagogia divina, a teoria escatológica, e outras.

Qual seria a sua resposta?

Ronaldo Sérgio

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A fé que faz deus existir do nada!

Conto12

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Segunda-feira, sentado na beira da cama no silêncio das cinco e meia da manhã, tive vontade de rezar. Não pronunciei nenhuma palavra. Fiquei calado olhando as cortinas da janela ainda fechada. A penumbra lá de fora evitava que houvesse alguma imagem que me distraísse. Quis dizer umas palavras, mas não consegui. Faltava-me algo, na verdade, me faltava alguém, o interlocutor. Senti um vazio. Não um vazio intencional porque eram meus ensejos que me levavam à orar, mas senti o vazio do lugar do outro. Rezar a quem? Com quem falar?

Nesta manhã, Deus não estava perto de mim. Talvez nunca estivesse e todos os meus lamentos e orações passadas não passaram de solilóquios ou monólogos entre meus ‘eus’. Tenho vários. Todos temos muitos “eus” e cada qual mais obsceno do que o outro. Frequentemente, estão resvestidos de uma máscara. Outras vezes, estão todos encavalados em cima um do outro.

Estou assim até agora, sentindo-me desbloqueado e desconectado do mundo da fé que faz Deus existir do nada. O que parece bastante contraditório, pois foi ele que, conforme a sabedoria judaica, nos criou do nada. A fé é mesmo quase desnecessária, neste sentido. Por isso, me recusei a usar o recurso psicológico da fé para me salvar desse momento de angústia. O tremendo e o medonho de Rudolf Otto não me salvaram, pois não havia nada de espantoso e nem de terrível em minha experiência. Nada de Deus, nada do Numinoso. Senti-me só.

O salto da fé que faz aparecer um ser supremo e todo poderoso que nos protege e salva, é uma ilusão. O deus da fé herdada é uma invensão. Uma imagem desnecessária. Uma projeção da alma humana. Um recurso de linguagem. Por que acreditar então? Porque ele é invisível e insondável, alguém diria. Sim, mas estas palavras não acrescentam nada à Deus em si mesmo. São invólucros do espírito humano.

O certo é que eu, nem com minha inteligência e nem com meus sentidos gostaria de forjar um Deus para satisfazer às minhas necessidades. E por mais que tente que ele apareça ou que eu o sinta, não o poderei converncer a existir exclusivamente para mim. Mesmo que eu tome as leis naturais ou teológicas que tentam ‘provar’ sua existência, não consiguirei trazê-lo à luz do dia. Neste sentido, sou seguidor de Freud e Nietzsche.

Ronaldo Sérgio

O outro

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Se não encontrarmos a razão de existir fora de nós, tantando com todas as forças expandir o mundinho dos sonhos pessoais (o que é quase sempre uma luta inútil e estéril) ou tentando prolongar os desejos internos projetando-os nos outros e achando que estamos respondendo ao amor solicitado, perderemos uma parte importante do sentido da existência. Existem muitas ilhas infelizes por ai, cheias de gente ao redor delas, mas estão sofrendo sozinhas porque ainda não descobriram a relevância de ser para o outro e não de acumular outros que, por sinal, são simpáticos.

Ronaldo Sérgio

Um cadinho de filosofia

A razão não é uma faculdade prática. A faculdade prática é a vontade. Como vivemos no mundo prático, melhor deixar a razão de lado. O que poucos sabem é que a razão é o fundamento da vontade boa em si mesma e é esta, por sua vez, o fundamento de todos os atos morais bons. Na prática, conforme, Immanuel Kant, a boa moralidade começa com aquele que pensa e não com aquele que age sem pensar. Como vivemos no tempo da desconstrução do iluminismo kantiano, é melhor dizer: “faça a sua vontade e seja feliz”, do que dizer: “pense bem sobre o que você está fazendo”.

Ronaldo Sérgio

A solidão da luz – I

Dez e trinta da noite e nada mais que o coaxar dos sapos e o barulho longe dos motores dos carros. De vez em quando ouço o latir sem vontade de um cachorro, que mais parece não saber o que fazer depois que lati. De noite entra uma luz discreta em meu quarto. As penumbras do lado de fora ficam fazendo graça entre esses raios de luz. O escuro da noite quase não existe mais e meus olhos não sabem, há muito tempo, o que é a escuridão. Já se esqueceram disso. Faz tempo que meu corpo não sente o fremir de algo estranho aparecendo do nada. “Mataram o nada” e ninguém sabe disso ainda. Os filósofos ficam preocupados porque Nietzsche proclamou a morte de Deus. E os teólogos ficam procurando caminhos estreitos porque os largos são do demônio. Pena que quase ninguém será salvo pela teologia e nem pela filosofia.

“Mataram o nada”. Mataram nossa destreza de descobrir caminhos onde não existe luz. Dai a fraqueza humana que leva para o stress, a depressão, a virose, o câncer etc. Por isso as pessoas procuram refúgio nas pegadas iluminadas das ciências exatas e das ciências humanas. Outros correm para a escuridão dos atalhos: remédios controlados. As pegas iluminadas e os atalhos são, muitas vezes, apenas paleativos. A fortaleza humana está no homen mesmo, dizem. Mas não. A fortaleza humana é uma luta entre ser e não ser – o nada.

Dez e trinta da noite e ainda é cedo para ir dormir. Restam a paciência e o marejo das ondas calcinantes de uma noite quente. Percorrer cada minuto para depois se desconectar do mundo. Do mundo das luzes; “da iluminação”.  Quando havia escuridão, todos sabíamos das manobras do que há de vir. Mas o que vinha sempre nos surpreendia. Hoje ninguém mais precisa esbugalhar os olhos para ver. E ninguém consegue ver o suficiente para esquecer a “solidão da luz”. As pessoas estão cheias do ser.

O “nada” fazia parte da vida, mas hoje não. Nas vizinhanças do “nada” o ser e a vida brincavam. Mas hoje eles se afastaram do “nada”. O ser e a vida estão só e iluminados pela luz que desgasta por causa de sua monotonia. As pessoas desaprenderam a viver na escuridão. A escuridão foi banida: nada de morte, de dor, de tristeza, de sofrimento, de doenças. E as pessoas esqueceram o que essas coisas significam e se enfraqueceram. A felicidade foi uma ilusão – um excesso de luz.

Se a vida fosse apenas uma conjuntura de acasos, diríamos que os pardais são mais felizes. A vida humana é mais que um caso; é mais que um lance difícil. É mais que o dia e que a noite desenrolando um novelo de linhas. A vida é uma luta entre ser e o não ser – o nada.

Liberalismo e individualismo!

A filosofia de Aristóteles conheceu três períodos de florescência. O primeiro foi no mundo antigo, no tempo em que o filósofo vivia e trabalhava. O segundo período foi mais longo, começou logo depois de sua morte e durou até o século sexto depois de Cristo. O terceiro começou na idade média tardia, permanecendo até o século dezessete, na europa ocidental.

Depois do século dezessete a filosofia de Aristóteles foi perdendo cada vez mais terreno, dando lugar à filosofia moderna. Apesar disso, alguns elementos ainda têm uma importância muito relevante para os nossos dias e que nos ajudam a fazer uma reflexão sobre a atualidade. Um destes elementos é o forte acento de seu pensamento em relação à concepção de que o ser humano é um ser social por natureza. Muitos sociólogos e filósofos de hoje recorrem à este aspecto para justificar suas críticas ao liberalismo e individualismo da sociedade em que vivemos.

O flúxo das mudanças atuais não nos deixa pega para definir precisamente o que é ou o que não é a nossa sociedade. Mesmo o ser humano, em sua fluidez cotidiana e em sua falta de fixação no mundo da vida, não tem uma única fisionomia. Como consequência os laços e vínculos sociais e comunitários não se caracterizam mais pelo contato corpo a corpo das pessoas, mas via-a-via. A virtualidade e a coisificação da pessoa são alguns aspectos destes laços via-a-via, nos quais a pessoa passa a ser considerada apenas um número, uma estatística, uma renda, um desejo, um endereço eletrônico, uma foto bonita, etc…. Talvez devéssemos chamar esta sociedade de “sociedade inexistente”, pois os vínculos via-a-via não pressupõem um ethos, uma casa e nem uma ética. O que são elementos básicos de uma sociedade interpessoal.

Mesmo a linguagem, uma característica essencial para os laços sociais, tem se tornado um dito pelo não dito. É bom lembrar que a linguagem não é um elemento artificial de socialização como aqueles criados pelo sistema liberal e pelo individualismo. A linguagem é um meio simbólico que pressupõe o corpo, a mente e o espírito, a pessoa em sua totalidade. Em sua natureza mais própria ela é interpessoal. Não objetiva e nem subjetiva a realidade da vida da pessoa, mas cria o ethos, a casa à partir da intersubjetividade, trazendo a possibilidade de uma ética social.

À primeira vista, parece-nos que o liberalismo e o individualismo vieram para ficar e que, atualmente, se tornam cada vez mais uma maneira fixa de ser e de compreender o mundo. Com palavras mais simples e vulgar, essa parece ser a única via permanente para a felicidade humana. O que é bastante contraditório com o que havíamos dito no parágrafo anterior à respeito das mudanças e da fluidez da vida social de hoje. O que é fixo não pode fluir e nem mudar e permanece como estrutura que define uma maneira de viver, carregando diferentes consequências consigo mesma. Mas, ainda não podemos afirmar que o individualismo e o liberalismo realmente se fixarão como modo de ser neste mundo. O que sabemos é que em sua estrutura interna, tanto um como o outro, são falhos. Ou seja, em sua estrutura enquanto mentalidade global eles têm a tendência de se destruir a si mesmos.

Embora o individualismo e o liberalismo levem o ser humano à inconstância social, política, psicológica, religiosa, etc; sabemos que as pessoas procuram meios para se fixar e se estabelecer como família e comunidade social. Esta inclinação humana de ser com o outro, de estar com alguém, de se solidarizar e viver com… permanece procurando meios de se sobreviver. Contudo, usando meios liberais, individuais, fragmentários por natureza. Por isso, vemos a fragilidade das políticas sociais nacionais e internacionais que dizem respeito às relações de ajuda mútua e cooperação. No ambiente mais pequeno e localizado, o que vemos são famílias desestruturadas procurando uma terceira via para sobreviver enquanto família. Porém, os meios são sempre falhos, pois em si mesmos instáveis e fracos. São como pernas-de-pau.  São apenas para o hoje, para o amanhã ou, no máximo, por um ano. Os meios, os vínculos via-a-via têm prazo de validade, usando uma linguagem da economia.

O caminho mais seguro a ser proposto consiste numa mundança de parâmetros e de mentalidade. Junto com isso, temos de propor outros meios e vias que não sejam aqueles do liberalismo ou individualismo. Propostas concretas que devem nascer das ciências humanas e sociais e que estejam fundadas naquilo que permanece como estrutura: a tendência humana inata de se socializar, de viver com os outros e para os outros. O ser humano não é um ser social por natureza, mas por tendência.

 Ronaldo Sérgio