Tenebrosa beleza

7.08.2016 - 1

Diz-me,
tenebrosa beleza
o que escondes
tão longe de mim
vindo assombrar-me
com a força do vento.

Conta-me
terna escuridão
o que contigo trazes
revirada em mim
chegando assustar-me
na curva do tempo.

Figura-me
terrível encanto
se foi o amor, a dor ou a flor
que te deixaram assim
querendo aturdir-me
vazio dos sonhos.

Carrega-me
pois, carrega-me contigo
leva o que tens e o que tenho
não me deixes só no desamparo
sentado na praia
sofrendo minha dor.

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

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Pesteado

 

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Penumbra
devagar divaga em seu olhar
voa tomando espaço
e os resquícios do sol
caem lentos
quando os medos
tomam conta dele
estacou-se vendo.

Redemoinho
na curva da estrada
virando os vãos
apossando-se dele
que deixa os passos
trêmulo apressados
fora de si
segurando-se mal
ao capeta atento.

Pesteado
vai de revés voltando
o olhar pra trás
recostando ao léu
sua lembrança doce
de quando menino
virava a vida
como o poeira vira
ao sabor do vento.

O capeta estava dentro dele.

Foto: mana5066
Ronaldo Sérgio

A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio

Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

Por aqui e por ali

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A vida tem hora. A morte também. Deus, se existe, é o único ser fora do tempo. Não porque é eterno – palavra mal criada, mas porque é Deus. Enfim, tenho publicado pouco por aqui. É porque estou me dedicando a um outro trabalho. O meu outro blog sobre a cultura do Suriname. País maravilhoso onde moro. Talvez vocês queiram visitá-lo. Clique aqui ou nas imagens. Abraços…

A porta e o vento

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Tristes lembranças
da luz fosca
escavada lá dentro
em minh’alma.

A porta e o vento
o amor e o tempo
o chapéu e o lamento
ficaram sem mim.

Agora sem termo
no escuro mais negro
no canto que vejo
é a falta de ti

A parede nua
o santo mudo
na porta o batente
grita insolente:

Volte!Volte!

Foto de Zé Veloso

Ronaldo Sérgio

São sonhos

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Antes que os sonhos terminem
no enredo da noite, já é dia.
Numa oca sem portas e janelas
os ventos vão e vêm
como nossas sensações
vagam pelo nosso corpo.
São sonhos.
Seus realces ficam o dia inteiro
nas rasuras da nossa memória
no riso, na finura do olhar.
É  lindo olhar o céu
ver que o dia também traz os seus
que como fogo
incendeiam esperanças.
O céu fica tão azul
que o infinito entra dentro da gente.

Ronaldo Sérgio
Foto de Rivaldo Mauro