Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

Por aqui e por ali

Marcel pinas2

A vida tem hora. A morte também. Deus, se existe, é o único ser fora do tempo. Não porque é eterno – palavra mal criada, mas porque é Deus. Enfim, tenho publicado pouco por aqui. É porque estou me dedicando a um outro trabalho. O meu outro blog sobre a cultura do Suriname. País maravilhoso onde moro. Talvez vocês queiram visitá-lo. Clique aqui ou nas imagens. Abraços…

A porta e o vento

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Tristes lembranças
da luz fosca
escavada lá dentro
em minh’alma.

A porta e o vento
o amor e o tempo
o chapéu e o lamento
ficaram sem mim.

Agora sem termo
no escuro mais negro
no canto que vejo
é a falta de ti

A parede nua
o santo mudo
na porta o batente
grita insolente:

Volte!Volte!

Foto de Zé Veloso

Ronaldo Sérgio

São sonhos

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Antes que os sonhos terminem
no enredo da noite, já é dia.
Numa oca sem portas e janelas
os ventos vão e vêm
como nossas sensações
vagam pelo nosso corpo.
São sonhos.
Seus realces ficam o dia inteiro
nas rasuras da nossa memória
no riso, na finura do olhar.
É  lindo olhar o céu
ver que o dia também traz os seus
que como fogo
incendeiam esperanças.
O céu fica tão azul
que o infinito entra dentro da gente.

Ronaldo Sérgio
Foto de Rivaldo Mauro

Riso tristonho

Ze Veloso

Quanto barulho
encheu minha alma
de tarde, o sereno,
no terreiro de casa
brincava com as gretas
afoito sonhava
de alma, secretas
borduras tão alvas.

Hoje, a porta molhada
o degrau feito às pressas
a voz que ficou
no peito as promessas
com as luzes da tarde
e a dor do abandono
o riso tristonho
me cala à beça

Ronaldo Sérgio

Bela

24.05.2016 - 1

Pedi à rua
o laço que me desembaraça
sua ternura fluida
seu corpo cortando o tempo.

Passa,
afasta os vãos
contorce os dias
meu desamparo enorme
ao andar tão lenta.

Bela,
agita o vento
o pesar das pálpebras
meu querer debulha
as horas que não passam.

Vai…
e nunca mais volta.

Deveria ter te pedido em casamento.

Foto de Jali Elaj
Ronaldo Sérgio

A dor o fez assim

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Era um  vagão vazio. Cheirando a mofo. Carcomido pelas ferrugens. Bonito por fora. Grandioso. Janelas sem vidros. Denso estava o ar com a porta estreita aberta. Era um vagão de dor. Um borrão no tempo. Uma vaga.

Foi assim que se sentiu naquele instante. Como se tivesse sido jogado na frente de um vulto. Uma carcaça. Um trem velho. Correram as horas pela sua pele. Mas o tempo parado o angustiava. Nada. Estava ao pé do nada.

Vivia quase sempre pelas beiradas das horas. Catando pequenos restos que sobravam delas. Como em vagões isolados. Separados do todo. Empedernidos do odor das ocupações.

Atinha-se aos outros aos bocados. Em relações vagas. Espalhadas pelos cantos dos dias. Quase restos. Sobras de sua atenção. Amar era em blocos jogados aqui ou ali… descarrilados.

Filho do tempo. Enferrujado por dentro.  A dor o fez assim.  Vago… vazio… insatisfeito. Olhava os vagões do trem. Era sua alma esturricando ao sol, ali na sua frente.

 

Foto de https://pixabay.com/
Ronaldo Sérgio