Bicho abrutalhado

DSCI3517

Ronaldo Sérgio

Minha alma é o rancho
a bica d’água serena
a foice, a enxada, o gancho
e a flor de açucena.

Minha alma é arame farpado
a várzea, a montanha e o céu
o caminho ensolarado
e os pedregulhos ao léu.

Minha alma é os cafesais
a chão seco e molhado
o vento sobre os arrozais
e o bicho abrutalhado.

Minha alma é a gruta de pedras
o riacho brando e frio
as seriemas nas serras
e o berro das bestas no cio.

Minha alma é o sangue no chão
o suor nas camisas rasgadas
o calo dorido na mão
as brasas já apagadas.

Minha alma não sou eu
sou borrões espatifados
velho como velho é Deus
vivendo de eternos fados.

Ronaldo Sérgio

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Riacho de minh’alma!

Conto13

Foto do google

 

O riacho que mora dentro de mim é doce, o espelho de minh’alma. Fonte de prazer, leveza e brandura, leva tudo consigo. Às vezes, nas bravias correntezas, carrega a beleza de ser o que sou. Um milagre de águas límpidas quebrando as rochas, saltitando como pedrinhas de bilhantes, uma atrás da outra.

Com a maciez das pequenas ondas varria do meu coração temores infantis. Outros tantos trazia, pesares e arrependimentos, o lancinante ressentimento misturado com sentimento de culpa.

Ali eu ficava quieto e calmo ouvindo e vendo, tocando e sentindo tudo. O riacho era o fundamento do meu mundo. A janela, a porta e o travesseiro. Tudo em minha vida existia como que para dar sentido ao correr apressado das suas águas.

Vida fluía e me enchia de esperança. Um dia conheceria as coisas como elas são. As águas que iam… e iam… e iam sem parar, gritando como inda ouço agora: vá, não pare… vá… o belo está lá, pra onde o aqui te empurra.

O riacho espelhava meu sonho. Minha agonia de ser feliz, quando triste por nada. Como gozo e gosto misturado na boca, ainda sinto o sabor de suas gotas molhando a ponta do meu nariz. Que destreza e frescura corriam em minhas veias. Destreza que move até hoje dentro de mim a ternura pela vida.

Atravessamos camadas juntos, camadas do bem e do mal, do dia e da noite, numa luta de amor, sem cordões ligando os fatos. Assim regresso no tempo e vejo como ele era, como ele é aqui dentro de mim, em minha alma. Vejo e sinto a fina linha que dá sentido à vida, como as suas águas nascendo, sem fim. Brotando da rocha como antes. As águas do riacho de minh’alma.

Ronaldo Sérgio