A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio

Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

A porta e o vento

13735103_588284084686577_7706938813948710139_o

Tristes lembranças
da luz fosca
escavada lá dentro
em minh’alma.

A porta e o vento
o amor e o tempo
o chapéu e o lamento
ficaram sem mim.

Agora sem termo
no escuro mais negro
no canto que vejo
é a falta de ti

A parede nua
o santo mudo
na porta o batente
grita insolente:

Volte!Volte!

Foto de Zé Veloso

Ronaldo Sérgio

Riso tristonho

Ze Veloso

Quanto barulho
encheu minha alma
de tarde, o sereno,
no terreiro de casa
brincava com as gretas
afoito sonhava
de alma, secretas
borduras tão alvas.

Hoje, a porta molhada
o degrau feito às pressas
a voz que ficou
no peito as promessas
com as luzes da tarde
e a dor do abandono
o riso tristonho
me cala à beça

Ronaldo Sérgio

A dor o fez assim

train-968955_1920

Era um  vagão vazio. Cheirando a mofo. Carcomido pelas ferrugens. Bonito por fora. Grandioso. Janelas sem vidros. Denso estava o ar com a porta estreita aberta. Era um vagão de dor. Um borrão no tempo. Uma vaga.

Foi assim que se sentiu naquele instante. Como se tivesse sido jogado na frente de um vulto. Uma carcaça. Um trem velho. Correram as horas pela sua pele. Mas o tempo parado o angustiava. Nada. Estava ao pé do nada.

Vivia quase sempre pelas beiradas das horas. Catando pequenos restos que sobravam delas. Como em vagões isolados. Separados do todo. Empedernidos do odor das ocupações.

Atinha-se aos outros aos bocados. Em relações vagas. Espalhadas pelos cantos dos dias. Quase restos. Sobras de sua atenção. Amar era em blocos jogados aqui ou ali… descarrilados.

Filho do tempo. Enferrujado por dentro.  A dor o fez assim.  Vago… vazio… insatisfeito. Olhava os vagões do trem. Era sua alma esturricando ao sol, ali na sua frente.

 

Foto de https://pixabay.com/
Ronaldo Sérgio

À luz das lamparinas

Conto30

Viver à luz das lamparinas. Uma luz quente e firme, de um fogo que parece não se apagar. É mistério. Ao redor das chamas que não iluminam tudo. Que guardam as belezas da noite. É como ser luz e não ter luz. Flamas que são retratos. Frágeis como nós. Trazem consigo o essencial. Viver é na lentidão.

O pavio se queima. Nunca até o fim. A brisa da noite que o diga. Perfuma a sala, a cozinha, o quarto… nossa alma. Ali ao redor pode-se contar casos, ouvir histórias. As vozes estão mais livres do medo.

Sua luz vermelha nos conforta. Sua claridade misturada com a escuridão é o coração da casa. É de se ver. A lamparina traz a luz amiga da escuridão. O que nos assusta é a penumbra.

Sua luz tem cheiro. Dá fome na gente. Seu balanço dá sono. Dorme-se em paz. Sem medo do amanhã.

Com ela, o tempo parece estar tecido com fios sutis e eternos. A noite é noite. Somos o que somos. Não há fuga. Nem se prolonga o dia encurtando a noite. Sentado no banco brinca-se com caixinhas de fósforos. Ao redor da vida… vivendo.

 

Foto de todocauso

Ronaldo Sérgio

Pescador

Conto25

O sopro do vento,
do barco o balanço.
A força do braço
abraça e acalenta.
A rede ligeira
obreira e sedenta,
de sonhos pesqueira,
caindo no mar.

O adorno do remo,
da vida o marejo
o ardente desejo
bordeja em ti.
A alma se enverga
e enxerga em si
o barco, navega
os rumos do mar.

O cheiro da tarde,
do fruto o aroma,
arromba e toma
o ser pescador.
remando pra casa,
abrasa o amor,
e o beijo da amada
longe do mar.

Foto de David Lazar: clique aqui

Ronaldo Sérgio