Nua

Corpo1

Entre… mal abriu a porta. A brisa tocava-lhe o rosto. Sustentada pela eterna expansão da noite. Seu desejo rasgava-lhe o riso. Despercebida. Era o mundo entregue a ela. A brandura do calor do corpo dele. O tom da sua voz. Completamente envolta. Dentro dele. Deu-lhe um beijo. Um abraço. Entraram.

Venha! Sente-se…. estou quase pronta. Segura-lhe a mão. Comprimida pela maciez de seu perfume. Saiu. O quarto a volvê-la toda. Nua. Trocava-se com a lentidão do toque. Fugidio era o pensamento nele. Na sala. À espera dela.

Sairam àquela noite….

 

Ronaldo Sérgio

Foto: Google

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Lascas de um dia

Novo5

__ Perdoe-me! Meus olhos estão pesados. Minha fronte dói. Sinto um vazio lá fora. O que me move por dentro se cala. Restam-me lascas de um dia difícil. Preciso dormir. Boa noite!

Tocou-lhe o peito, aproximando seu corpo ao dele. Debaixo dos lençóis. Deu-lhe um beijo.

__ Eu sei meu amor. Boa noite, durma bem!

Caíram no sono.

Foto de photobucket
Ronaldo Sérgio

 

 

Pescador

Conto25

O sopro do vento,
do barco o balanço.
A força do braço
abraça e acalenta.
A rede ligeira
obreira e sedenta,
de sonhos pesqueira,
caindo no mar.

O adorno do remo,
da vida o marejo
o ardente desejo
bordeja em ti.
A alma se enverga
e enxerga em si
o barco, navega
os rumos do mar.

O cheiro da tarde,
do fruto o aroma,
arromba e toma
o ser pescador.
remando pra casa,
abrasa o amor,
e o beijo da amada
longe do mar.

Foto de David Lazar: clique aqui

Ronaldo Sérgio

Tudo é mundo

Conto23

Salvador Dali – O sonho

Depois de Freud toda interpretação dos sonhos acaba tendo um sabor psicanalítico. Os desejos, geralmente relacionados à sexualidade e incubados no inconsciente, vêm a tona como manifestações noturnas. As razões são simples. Enquanto dormimos nosso consciente também adormece perdendo forças e deixando brechas para o grito das enormes energias inconscientes.
Um desses gritos ouvi a noite passada. Não foi nem suave e nem medonho. Foi estranho apenas. Sonhei com os sons da terra, com as brincadeiras de deus, com as pessoas amarradas a um cordão sendo desenhadas pelo vento. Sonhei com os desejos dos bichos, com a alma das plantas e o cheiro dos riachos correndo entre as pedras. Sonhei com o beijo entre os povos, com o perfume da lua e o abraço dos céus. Sonhei com lugares longínquos rasgando meu peito e me enchendo de dor, com a pobreza e a fartura de vida, com o riso e o choro, com o sopro do agora que já se foi.
Sonhei com as janelas abertas, sem grades e alarmes, com as pedras quebradas dos corações e com a loucura inocente do amanhã. Sonhei com o fogo ardente, com o fim do dinheiro, da compra e da venda, com as mãos calejadas, o suor e o cansaço da alma órfã. Sonhei com a ciranda dos poderosos dançando descalços no terreiro de chão, com a beleza das rosas, com o canto das pétalas escorrendo entre os dedos e morrendo com o sol. Sonhei com a fuga dos anjos das imagens de gesso, com santos filhotes ainda indefesos, com o ninho da vida, com a morte e o mal. Sonhei com porteiras antigas de estradas de terra, com a força da lentidão, com o amor que espera olhando da janela seu bem fazer a curva e não voltar com o pão.
Sonhei com o abraço das pedras, com rodovias destruídas, com o canto das máquinas e o ruído dos corações, com gente insatisfeita sofrendo a delícia de sempre querer algo em vão. Sonhei com a luta divina pra sair das igrejas, dos templos de tejolos e cimento, frios e sem vida, lotados de gente vazia por dentro. Sonhei com rezas e preces sufocando a deus, com o direito divino de ter o que tem e de ser o que é, com sermões obscenos desnudando o céu. Sonhei com a chuva, a goteira em casa, com os sons da brisa e o orvalho da manhã, com pais separados, pais ajuntados, filhos trincados, sofrimento e dor.
Sonhei com os buracos na alma, com os desejos sem nome, com as horas que passam e passam e passam. Acordei com o grito e pensei em ti. Talvez o mesmo grito te acorde e veja, como vi, que fora de nós tudo é mundo. Mas dentro de nós a fartura de alma é tão grande que se derrama em sonhos.

Ronaldo Sérgio

Na praça – I

Conto1

Não falavam coisa com coisa. Estavam apenas fazendo graça e contando piadas. A água suja da fonte não lhes chamava a atenção. Não era isso que os atraía a ficar na praça. Amigos já há alguns anos, adoravam gastar um tempo bebendo cerveja e falando besteiras.
__ Melhor cerveja? Hahaha a minha predileta é a Bohemia. E não tem discussão. Sempre a achei a melhor, mas é muito cara, claro.
E os outros diziam também, com a boca cheia, de seus gostos, fazendo uma lista das melhores cervejas que já tinham bebido como a Heineken, a Quilmes Cristal, a Erdinger Weiss e a Guinness. Porém, hoje todos bebiam Skol e não reclamavam.
__ Vocês vão ao Rodeio em Jacutinga?, perguntou Ricardo, sempre cortando a conversa. Adorava fazer isto e muitas vezes de propósito.
__ Rapaz! Não sei, disse Julio. Quando é que é isso mesmo?
E o bate-papo mudou completamente de assunto.
__ Mês que vem. Começa dia 13, eu acho.
__ Estou pensando. Fiquei sabendo que no sábado o show é do Zezé Di Camargo e Luciano. Completou Lucio, o mais tímido do grupo e o menos experiente quando se fala em ir a uma festa assim.
__ Sério? Dizem que o show deles é bom. E quanto é o ingresso, 30 reais?, perguntou Marquinhos.
__ Que nada, é apenas 25 contos. Tá muito barato
__ Oh é? De Inconfidentes era 30. Pode ser que dê pra eu ir, continuou Marquinhos.
__ Vamos todos? Vai ser bom. Mulherada lá. Disse Lucio.
__ Olha ai gente, o menino tá ficando esperto. Não era assim não, saidinho. Agora tá até indo pra gandaia.
Todos riram do que Ricardo disse. Era verdade, Lucio sempre foi bastante acanhado e todos sabiam disso. Mas, nas últimas semanas ele parecia ter mudado da água para o vinho. Estava mais solto, falava mais besteiras e xingava sem mais nem menos. Em casa todos notaram a mudança de caráter. Tornou-se mais agressivo, exigente com suas roupas, queria maior privacidade e ficava ouvindo outros tipos de música. Ele adorava sertanejo romântico, aquelas músicas bem melosas sobre amor proibido e platônico. Passou a ouvir rock e reggae. Conversava pouco com os pais. Saía sem avisar e voltava tarde da noite. Em duas semanas voltou três vezes embriagado.
A mãe, que já tinha percebido e comentado com o pai, estava bastante preocupada com as mudanças de comportamento do filho. Sem sucesso, ela tentava conversar com ele, mas ele se mostrava sempre arredio e bastante aguerrido. O irmão mais velho suspeitava que ele estivesse se metendo com amizades perigosas, que mexem com drogas e adoram bebidas pesadas. Não tinha certeza, por isso não mencionava nada com a mãe, para livrá-la de preocupações desnecessárias.
__ E a Mônica, Lucio? Te vi de lero com ela. E aí, vai contar ou não? perguntou Ricardo dando um tapinha nas costa do amigo que, um pouco acanhado, soltou uma risada a contragosto. Fez-se um silêncio entre eles, no entanto, Lucio não disse nada, pensando apenas no ocorrido. Ninguém percebeu, mas teve uma vontade tremenda de chorar. Um calor incomum atravessou-lhe o corpo e, por um instante, não via amigos, nem praça, nem o copo de cerveja que segurava na mão. Nada. Sentiu um amargo na boca e o coração esbarrar nas costelas magras procurando sangue.
__ Ah, é assim agora? Sai e nem fala nada com os amigos? Conta aí nem, Lucio. Saiu com a gata ou não? brincou Marquinhos também.
Rindo e bebendo, todos olharam-no com a curiosidade dos jovens que estão aprendendo a beijar ou que gostariam de beijar, mas não tiveram oportunidade ainda. Aquele olhar sacana de menino que procura uma revista porno e, escondido, vai ver como é o corpo das meninas e como se transa. Coisa de instante que Lucio nem percebeu, porque estava ensimesmado jogando mais uma latinha de cerveja no lixo.
Atípica foi a reação do Julio que, sem mais nem menos, foi ao bar, alegando ter que ir ao banheiro. Ninguém notou nada, fechou a cara e saiu porque não queria participar dessa conversa tola.
__ Malandro ele nem? completou Ricardo, ficando em pé. Já estava cansado do banco da praça.
Para não lhes contar a verdade, Lucio pegou mais uma latinha, abriu e disse apenas que estava passando por lá aquele momento e que ela queria saber se ele havia visto o seu irmãozinho.
Não acreditaram nele e o chamaram de mentiroso. Ricardo disse até tê-lo visto sair com ela da choperia naquela noite. Mas, deixaram pra lá a conversa, riram mais um vez e continuaram a beber, falando agora sobre futebol.
Lucio estava longe, pensando em Mônica. Fazia comentários sobre o Corinthians, seu time do coração, mas o filme que via se chamava Mônica. O primeiro beijo que deram três semanas atrás, aquele esbarrar de seus corpos próximos um do outro. O cheiro do perfume dela, seus cabelos deslizando entre seus dedos. Seus seios firmes, um pouco tesos, tocando o seu peito. Seus lábios molhados cheios de desejos intensos e o esfregar-se um no outro, tudo isso o distraía tanto que ele tomou sua latinha de cerveja quase num gole só e, assim de repente, despediu-se dos amigos e foi pra casa.
Quando Julio voltou trazendo mais cerveja, Lucio já tinha virado a esquina e desaparecido. Perguntou por perguntar onde ele tinha ido e os outros disseram que fora embora. Sem dar atenção ao jeito estranho do Julio reagir, olhar e sorrir, abriram as novas latinhas e continuaram o bate-papo até tarde da noite.
Lucio caminhava pensativo, triste e bastante revoltado. Desde o primeiro encontro não teve mais oportunidade de ver Mônica novamente. Ela o evitava, ele sentia. Não ligava e nem estava naqueles lugares comuns onde ele sempre a via. Ele sabia que algo tinha acontecido, que ela não queria mais nada com ele e que tudo tinha sido somente um caso.

…. o conto continua …

Ronaldo Sérgio

A felicidade é lenta!

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Sentado à beira da estrada vendo o mundo passar. Vendo as pessoas desenrolando a vida, como uma costureira desenrolando um novelo de linha. Vendo a correria de tanta gente indo e vindo de carro, de taxi, de ônibus, de bicicleta, de moto ou à pé. Vendo as cores e os aspectos de uma vida agitada. E imaginando os traços de seus sonhos.

Sentado à beira da estrada ouvindo o mundo passar. Ouvindo o ruído dos motores, dos pneus e das vozes. Tudo junto numa confusão de dissonantes, sem harmonia e sem ritmo. Ouvindo os gritos de euforia, os desejos mais íntimos. O mundo sem paciência que não suporta esperar. Ouvindo o canto mudo dos bichos, do vento e das águas que perdeu o encanto e a beleza.

Sentado à beira da estrada sentindo-se só. Sozinho com tudo ao seu redor chamando por socorro, por mais vida e paz. Sentindo-se fraco e forte diante da cegueira das pessoas, que correm sem saber para onde e nem por quê. Sentindo, por um momento, que há esperança.

Sentado à beira da estrada procurando felicidade e imaginando-a passar lentamente. Lentidão que engana os corações apressados e orgulhosos. A felicidade não está à mão daqueles que têm a mão cheia das ferramentas inúteis deste mundo. Sentado à beira da estrada… posso te assegurar: A felicidade é lenta como a beleza, o amor e a paz.

Ronaldo Sérgio