Esquecedor do céu

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Esquecemos o horror
O sopro do vento
vivendo o desalento aos risos
e os sofrimentos

Esquivamo-nos da morte
e do sol que nasce
caminhando a passos largos
no assoalho do mal

Desprezamos as lágrimas
a cambuca d’água
cheia do horror alheio
estilhaçada.

A sede insatisfeita desgosta
a dor desgosta
a violência desgosta

Roubamos de Deus:
o horror de ser o que é
sem poder ser sem horror
pobre esquecedor do céu.

Ronaldo Sérgio

São sonhos

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Antes que os sonhos terminem
no enredo da noite, já é dia.
Numa oca sem portas e janelas
os ventos vão e vêm
como nossas sensações
vagam pelo nosso corpo.
São sonhos.
Seus realces ficam o dia inteiro
nas rasuras da nossa memória
no riso, na finura do olhar.
É  lindo olhar o céu
ver que o dia também traz os seus
que como fogo
incendeiam esperanças.
O céu fica tão azul
que o infinito entra dentro da gente.

Ronaldo Sérgio
Foto de Rivaldo Mauro

Quando minhas palavras

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Quando minhas palavras forem reais como seus sorrisos. Quando forem delicadas como as flores. Quando trouxerem alegria ao coração e descanso para alma. Quando o sentido delas estiver abraçado com a vida.
Quando minhas palavras forem simples como é simples estarmos juntos, sentados ao cair da tarde. Quando ficarem caladas e no silêncio disserem tudo. Quando minhas palavras carregarem os corações e os encherem de doçura e respeito. Quando nascerem com o sol e nascerem com a lua, perfumando o mundo de luz.
Quando minhas palavras esculpirem retratos de paz e gentileza na brusquidão do mundo. Quando acariciarem os pés cansados e as mãos calejadas. Quando aquecerem o corpo fazendo-o forte contra a dor e o sofrimento. Quando minhas palavras tocarem a pele tecendo brandura e mansidão contra a violência.
Quando minhas palavras disserem o porquê do mal e o porquê do amor. Quando tocarem a alma sorrindo das tolices da vida e dos problemas inúteis que criamos. Quando minhas palavras voarem como o beija-flor. Quando correrem sobre as pedras como as águas cristalinas dos riachos. Quando tocarem o céu e se desmancharem como as núvens.
Quando minhas palavras forem laços entre nós. Quando ficarem contigo para fazê-lo feliz. Quando forem pontes de beleza e simplicidade. Então sim, também serei feliz.

Ronaldo Sérgio

Sua única delícia era contar histórias

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Foto do google

Pano de fundo era o sol segurando o céu. Algumas mechas de nuvens ao longe pareciam coladas atrás das orelhas dele. O poste de luz confiscava seus gestos, aguardava uma queda de repente. Nada acontecia. E o vento levava sua alma para longe, cada vez mais perto de si mesmo. As últimas gotas de orvalho ainda estavam sobre seus ombros. Cabelos espatifados pela brisa queriam varrer-lhe da mente a dor. Estava em pé.

Senti-me perplexo. Era um senhor de 80 anos, parado na minha frente. Mastigava sem parar. Parecia mastigar o mundo. Tinha apenas um dente já bem amarelado. Seu jeito de falar era como tecer curvas. Bordava horizontes, como a paisagem daquele dia. Às vezes, falava para si mesmo. Falava sem ouvir o tom da voz. Nem o eco ouvia.

O que lhe segurava em pé era a sua angústia. O sorriso dele me confundia. Dissera que tinha filhos por ai. Onde estavam ou moravam? Nem perguntei. Já tinha entendido. “Por ai…” era o resumo das palavras “não me pergunte, porque também não sei’. Morava numa cabana que se enchia d’água em tempos de chuva. Pagava aluguel. Não pediu nenhum trocado a mim. Apenas falava comigo naquela manhã linda de sábado. Economizar palavras não era o seu feitio. Contou histórias.

Estava em casa, certa vez, e fora chamado pela polícia. Intimação? Não, não! Fora chamado para tentar tirar a dor das costas de uma moça. Chorava de dor. Não tinha remédio que ajudasse. “Entrei na sala. Era uma jovem bonita. Pedi pra ela vestir a camisola. Moço!!!! Você nem imagina!? Nem tive tempo, ela deixou a roupa cair. (‘Mas não era pra ser na minha frente). Ma não é que a moça ‘tava sem calcinha…..”.

Tinha o jeito estranho, muito estranho de terminar suas histórias. De repente, parava e não dizia mais nada. Depois prosseguia. Era uma outra história.

“Uma vez me chamaram pra ajudar uma mulher grávida que estava com muitas dores nas costas. Estava com um barrigão. Precisava ver. Comecei a fazer massagem e, assim do nada, a moça deu um grito. Ai…! Levei um susto, o senhor nem sabe. E disse a ela: ‘não vai parir agora não hem?!….”.

Era o seu estilo. Tirar a dor dos outros. Narrar a vida pedaço por pedaço. Deixar o principal faltando. Jogava o passado lá na frente. Como se nunca tivesse grandes sonhos e nem grandes planos na vida. Nada sobrava, nada era artificial em suas palavras.

Seu corpo completava o oco de sua alma. Se caísse o sol naquela hora, saberia narrar o próximo amanhecer com a lua. Estava sempre abastecido do que haveria de vir. Esperava o ônibus para a cidade. Esperava os fatos se aproximarem dele. Era como se estivesse o tempo todo no passado. Comendo o que se passou. Vivendo dele. Tinha umas moedinhas na mão. Nada mais era necessário. Sua única delícia era contar histórias.

 

Ronaldo Sérgio

Bicho abrutalhado

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Ronaldo Sérgio

Minha alma é o rancho
a bica d’água serena
a foice, a enxada, o gancho
e a flor de açucena.

Minha alma é arame farpado
a várzea, a montanha e o céu
o caminho ensolarado
e os pedregulhos ao léu.

Minha alma é os cafesais
a chão seco e molhado
o vento sobre os arrozais
e o bicho abrutalhado.

Minha alma é a gruta de pedras
o riacho brando e frio
as seriemas nas serras
e o berro das bestas no cio.

Minha alma é o sangue no chão
o suor nas camisas rasgadas
o calo dorido na mão
as brasas já apagadas.

Minha alma não sou eu
sou borrões espatifados
velho como velho é Deus
vivendo de eternos fados.

Ronaldo Sérgio

Longe de ti

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Foto do google

Minh’alma se agarra ao sol
mesmo na escuridão da noite
sôfrega procura por sua presença
nas entrelinhas dos dias
sem sentido longe de ti
porque te ama demais.

Dessabida é minh’alma sem ti
sempre insatisfeita com as doçuras do mundo
com as flores que murcham
com o canto dos pássaros
e os sons dos ventos que a fazem tremer
querendo o calor da sua proximidade.

Carrega consigo a eterna dor
de não poder te alcançar
te tocar e te conhecer como és,
se entregando às horas sem ti
presa à própria ideia de não poder se revelar
e dizer que te ama.

Se debate entre os afazeres debaixo do céu,
se arrumando todos os dias
juntando os pedaços espalhados pela casa
escondendo as lágrimas
e usando os melhores produtos,
para enfeitar o sofrimento que sente,
longe de ti.

Minh’alma grita em silêncio
esperando, amando e sofrendo
sem saber se no fim dessa história
te encontrará ou não.

Ronaldo Sérgio