Nua

Corpo1

Entre… mal abriu a porta. A brisa tocava-lhe o rosto. Sustentada pela eterna expansão da noite. Seu desejo rasgava-lhe o riso. Despercebida. Era o mundo entregue a ela. A brandura do calor do corpo dele. O tom da sua voz. Completamente envolta. Dentro dele. Deu-lhe um beijo. Um abraço. Entraram.

Venha! Sente-se…. estou quase pronta. Segura-lhe a mão. Comprimida pela maciez de seu perfume. Saiu. O quarto a volvê-la toda. Nua. Trocava-se com a lentidão do toque. Fugidio era o pensamento nele. Na sala. À espera dela.

Sairam àquela noite….

 

Ronaldo Sérgio

Foto: Google

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Abraça-me aos poucos

Jale Elaj2 (2)

Pesado me sinto
quase insuportável sem ti
aturo em mim
tristonhos desejos
e passo o tempo
catando porções
quando aqui perto
te agarrava aos beijos.

Amo aos trechos
porque dói
carregar em mim
o que sempre esboça
em seu olhar
quando vai embora.

Com o vento
pedaços caem de ti
e leva de mim
meu amor retalhado
a casa cheia
de seu jeito de amar
machuca minha alma.

Sereno me sinto
aos acenos que vem de ti
gritando pra mim
a volta pra casa
derramando afeto
abraça-me aos poucos.

“Te amo!”

Foto de Jale Elaj – Google+
Ronaldo Sérgio

Pescador

Conto25

O sopro do vento,
do barco o balanço.
A força do braço
abraça e acalenta.
A rede ligeira
obreira e sedenta,
de sonhos pesqueira,
caindo no mar.

O adorno do remo,
da vida o marejo
o ardente desejo
bordeja em ti.
A alma se enverga
e enxerga em si
o barco, navega
os rumos do mar.

O cheiro da tarde,
do fruto o aroma,
arromba e toma
o ser pescador.
remando pra casa,
abrasa o amor,
e o beijo da amada
longe do mar.

Foto de David Lazar: clique aqui

Ronaldo Sérgio

Óculos quebrados

Conto23

Foto do google

A angústia é um trecho inóspito. Desertada do sentido que os desejos projetam. Assombra o olhar da gente. Faz ver o que dói. O que destroça por dentro. Abafa. Abre as tramelas da alma que, como janela batendo contra o vento, se fere a si mesma.
Viver é sofrer. Reunir retalhos a cada dia. Solitário e com o mínimo de luz. Neste mundo, como se existissem outros, não há outro caminho. Apressamo-nos a dar razão pra vida. Estudamos, nos casamos, temos filhos, fazemos faculdade, construímos casas… Damos sentido ao sem sentido. Forjamos a vida com a beleza. Com dinheiro compramos bem-estar. Mas, a vida é um poço vazio. Em si mesma não traz nada. O que achamos que é, é adereço, adorno. Apenas enfeite.
Depois de vivida, é como óculos quebrados. Colados com fita, feios. Ainda utilizáveis. Sentido? Sim, um sentido bruto. Tão grosseiro que fere. Para o outro que os vê no rosto da gente parece uma aberração. Mas, bruto é sentir-se brutalizado! Como se os mesmos óculos estragados fossem olhos perdidos. Furados. Doentios. À vista, assim no duro. Cru. Exigindo algum sentido. Vertendo lágrimas escondidas lavando o rosto. Aberrados, fora do padrão de beleza. Sem significado ao mundo. Sem valor. Valor que define sentido.
Estranho quando me olhava. Um senhor alto e de óculos. Algo o atraía, o deixava angustiado. Sua alma se debatia. Abafada não encontrava sentido no que via. Estava como que assombrado. Aberrado por dentro. Olhava e olhava, instigado a virar-se e a olhar de novo. Nada dizia. Por um instante ficou perdido num trecho inóspito. Se virava para um lado e, depois, para o outro. Entrava no bar e saía e olhava outra vez. Mas, estranho era o outro que, assim no soco, ali na rua esperando, despreocupado, trazia no rosto seus óculos quebrados…

Foto2

Rancho do Peregrino

 

Ronaldo Sérgio

Sucupira

Foto de Zé Veloso2

Foto de Zé Veloso

O que me faz sofrer, Sucupira,
nesse trecho da estrada
vendo o molejo sem parada
do sol que suspira
é o abandono.

Abandono que me leva
desejoso e inquieto
pisando em graveto
aos seus pés, me enleva
te ver Sucupira.

Ainda que eu seja
sempre um ser ido que sou
deixar-te onde ficou
dói, pois minha alma deseja
ficar contigo.

Insatisfeita peregrina
colhendo as fissuras do belo
em ti, Sucupira, desvelo
minha dor ferina
de te abandonar.

Ronaldo Sérgio

Deus recostado a uma árvore

Foto1

Foto do google

Ouço você chorando em meu quintal
banhando-se com o orvalho
sedento pelo céu.

Ouço deus gemendo entre as folhas
recostado ao tronco da árvore
sedento para ser deus.

Depois que veio morar conosco
nunca o deixamos partir
o céu está longe demais.

Que chore e que beba o que bebemos
permanecerá sempre aqui
desgostoso dos homens.

Um deus recostado a uma árvore
sedento de divindade
sedento do céu.

O que me importa se disserem:
cultive a deus.
acredite em deus.

Sim, acredito, mas des-acredito
o deus que fica misturado com o mundo
misturado com o pensamento
misturado com a dor
misturado com a plena alegria
misturado com o paraíso
misturado com o mal
misturado com o amor
misturado com o que os homens querem
deus morto.

Acredito sim,
em deus que não é deus,
mesmo que não queira ser deus
porque não é o que é
nem o que penso
nem o que amo
nem o que faço
nem o que sonho
nem é o que acredito
nem o que desejo que seja deus.

Ronaldo Sérgio

Poemas que nascem do nada

DSCI3640

Goteiras

Chove pesado em meu quintal
apenas em meu quintal
mas não deixo ninguém notar
as goteiras em meu semblante
fazendo jorrar pedaços de minha alma.

Cipós

Minha alma é torta como cipós entrelaçados.
Um desejo aqui, uma sombra ali,
uma vontade nunca satisfeita,
sonhos espedaçados,
a esperança e o amor.

DSCI3658

Morte

Sem chances…. te amo assim mesmo
de manhã e de tarde
molhados por fora e por dentro
até que apareça a morte
mas não depois dela.

 Inutilidades

Quero estripar as palavras
rasgar os signos e os sentidos
compilar os restos em minha lista de inutilidades
e parar de me debater
procurando poemas onde não moram.

Ronaldo Sérgio