Mãe

conto35

Gerar

Amaste-me mais que tudo
tecendo-me em teu ventre
Abraçaste-me com terna ventura
de amor eterno
sofrendo uma dor agreste
fazendo-me amar-te sempre.

Nascer

A dor que em mim doía
tremendo nos teus braços
era o desamparo d’alma
lenta e frágil
amparada em teu regaço

Crescer

Sentindo-te outra
resvalando em ti meu corpo
entre afagos e afetos
deixaste sentir-me um outro
entranhando n’alma
seus toques de amor, oh mãe.

Cuidar

Os trechos que mais chorava
era a dor da solidão
destronada dos cuidados
desejando mover mundos
pra tirar minha aflição
curava-me ver-te assim
entre mimos amando-me.

Morrer

O tempo da vida é o corpo
sem hora é a alma
cicatrizada de amor
afigurando o eterno
no peito meu que ficou
seu amor é meu amor,
pra sempre.

Foto de Pinterest
Poema: Ronaldo Sérgio

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A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio

Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

Riso tristonho

Ze Veloso

Quanto barulho
encheu minha alma
de tarde, o sereno,
no terreiro de casa
brincava com as gretas
afoito sonhava
de alma, secretas
borduras tão alvas.

Hoje, a porta molhada
o degrau feito às pressas
a voz que ficou
no peito as promessas
com as luzes da tarde
e a dor do abandono
o riso tristonho
me cala à beça

Ronaldo Sérgio

A dor o fez assim

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Era um  vagão vazio. Cheirando a mofo. Carcomido pelas ferrugens. Bonito por fora. Grandioso. Janelas sem vidros. Denso estava o ar com a porta estreita aberta. Era um vagão de dor. Um borrão no tempo. Uma vaga.

Foi assim que se sentiu naquele instante. Como se tivesse sido jogado na frente de um vulto. Uma carcaça. Um trem velho. Correram as horas pela sua pele. Mas o tempo parado o angustiava. Nada. Estava ao pé do nada.

Vivia quase sempre pelas beiradas das horas. Catando pequenos restos que sobravam delas. Como em vagões isolados. Separados do todo. Empedernidos do odor das ocupações.

Atinha-se aos outros aos bocados. Em relações vagas. Espalhadas pelos cantos dos dias. Quase restos. Sobras de sua atenção. Amar era em blocos jogados aqui ou ali… descarrilados.

Filho do tempo. Enferrujado por dentro.  A dor o fez assim.  Vago… vazio… insatisfeito. Olhava os vagões do trem. Era sua alma esturricando ao sol, ali na sua frente.

 

Foto de https://pixabay.com/
Ronaldo Sérgio

Lascas de um dia

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__ Perdoe-me! Meus olhos estão pesados. Minha fronte dói. Sinto um vazio lá fora. O que me move por dentro se cala. Restam-me lascas de um dia difícil. Preciso dormir. Boa noite!

Tocou-lhe o peito, aproximando seu corpo ao dele. Debaixo dos lençóis. Deu-lhe um beijo.

__ Eu sei meu amor. Boa noite, durma bem!

Caíram no sono.

Foto de photobucket
Ronaldo Sérgio

 

 

Ferida

15.05.2016

Tamanha insensatez
e estúpida brutalidade
foi te cortar tão cedo
levados pela beleza
pelo prazer em tê-la
para enfeitar seus egos

Não estavam colhendo flores
bárbaros sem amor
Estavam te arrancando
pequena e indefesa,
frágil de alma ilesa
do mundo da vida

Presa no eterno fato
e acorrentada pela infinita dor
a violência é o muro
à sua frente ó Ferida.
Mas, esquecerão de ti
e ficará sem mim
para te acolher.

Quem dera passasse
e ficasse em cada lar
para estilhaçar o medo
de lutar pela paz.

Foto de Jale Elaj

Ronaldo Sërgio