Pesteado

 

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Penumbra
devagar divaga em seu olhar
voa tomando espaço
e os resquícios do sol
caem lentos
quando os medos
tomam conta dele
estacou-se vendo.

Redemoinho
na curva da estrada
virando os vãos
apossando-se dele
que deixa os passos
trêmulo apressados
fora de si
segurando-se mal
ao capeta atento.

Pesteado
vai de revés voltando
o olhar pra trás
recostando ao léu
sua lembrança doce
de quando menino
virava a vida
como o poeira vira
ao sabor do vento.

O capeta estava dentro dele.

Foto: mana5066
Ronaldo Sérgio

Silêncio de Deus

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Foto de Ronaldo Sérgio

Minha alma tem vãos
tem trechos e mistérios.
O silêncio que ela esconde
na parte mais nobre
é o silêncio de Deus.

A parte mais nobre
o aquém de minha alma
é um trecho inóspito
onde sei que não moro
nem poderia ficar.

Onde moras, oh Deus?
Em minha alma, onde moras?
No aquém de mim mesmo?
Por que te escondes de mim?
Sua face e seu cheiro
Sua fissura por mim?

Nada ouço e nada vejo
neste trecho da estrada
neste vão de silêncio
neste texto de dor
pois não te encontro em minha alma

E porque não te encontro,
encontro a mim mesmo
desfigurado e aflito
ocupado comigo
na escura desolação
da falta de ti.

Afronta-me o seu silêncio
e a sua bruta quietude.
Na escura parte de minha alma
na parte mais nobre.
E por que se desencontra de si mesma
se perde de Ti.

Ronaldo Sérgio

A lentidão da vida

 

Conto19

Fotos do google

Um momento inesperado
trouxe consigo a dor
e a lentidão da vida.

Debatendo-se no chão
não conseguia falar,
mas gemia e chorava de dor.

Parecia uma casca seca
levada pelo vento forte
dos carros em velocidade.

Se revirando asfalto afora
queria apenas ir embora
pro outro lado da estrada.

Era um bicho, um lagarto
se contorcendo no asfalto
de dor que não era minha.

A minha dor era outra
de vê-lo espatifado
entre os pneus dos carros

Tão de repente um nada
que como eu respirava
e vivia no mundo de Deus.

Agora, nesta nova aurora
jorra minha dor como outrora
vendo a vida se acabar.

Ronaldo Sérgio

Do outro lado

Do outro lado do morro há uma estrada,
feita à mão, torta como gente.
Ao longo há árvores plantadas por pássaros.
Um luxo ficar ali, sentar-se ali, viver ali.
O sabor nunca sai da minha boca,
a espessura do ar tocando as folhas,
fazendo cócegas em mim.
Árvores de galhos torcidos
torcidos como cipós,
que davam nó em meu prazer.

Do outro lado as distâncias eram desenhos,
compêndios de sonhos e ilusões da gente.
Ao nascer do sol, caminhando,
banhando-se da luz,
do descaso das coisas que não falam,
nem fazem ruído algum,
de deus que se mistura com tudo.
Ali a estrada fazia a curva.
Ali ela era ponte e salvo-conduto.
As sombras das árvores,
o frescor e o conforto suspirando minha alma,
confiscavam minha atenção,
no verão e no verão e no verão de novo.

Do outro era o futuro, a vida, a grandeza.
O caminho, que levava meus pés, atava-me,
guardava meus rastros e a minha dor.
Era a minha época.
O tempo dos meninos e dos sonhos.
Viver, de dor vivendo, era brincar,
como chutar bolinhas pela estrada,
chutar até que se explodissem, se arrebentassem.

Era o tempo das falcatruas
das gargalhadas de amor,
de amor sem nome e sem endereço.
Aquele sentimento já descompassando meus passos,
jogando-me para o mistério,
o mistério de gostar de alguém,
de viver por alguém,
mas não ter ninguém.

Do outro lado do morro…
Depois da curva do caminho…
Quem sabe… eu encontre uma estrada assim,
povoada de gente,
de alguém que me faça feliz
e que eu possa amar.
Era a minha esperança.

Ronaldo Sérgio

Deus, colecionador de sapatos!

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Foto do google

Caminhava pela cidade, atravessando ruas, esbarrando as pessoas, olhando os carros e desviando-me das crianças, quando vi algo que muitos considerariam como lixo, como coisa insignificante. Num dos cruzamentos do centro havia um par de sapatos abandonado. Era azul com listras e cadarços brancos. Parecia ainda conservar o calor dos pés que o tinham carregado.

Era um caminho e uma história que estavam ficando ali, jogados, esquecidos e desapercebidos. Isolados do mundo, aqueles sapatos eram uma metáfora da realidade. Eram sinais de contradição. Janelas fechadas para o futuro que poderiam ser abertas. Aqueles sapatos escondiam desejos, sonhos e lutas vividos ou não. Traziam marcas de uma pessoa e de um coração muitas vezes ferido e magoado. Mas, em suas cores eu vislumbrava amor e a alegria, a paz e a esperança. Momentos intensos de vida.

Que bom se tivéssemos a ousadia de procurar pelo dono e de lhe dizer que abandonar sapatos é um crime. Um crime contra si mesmo. Um crime contra sua própria história. Porque sapatos são mais do que utensílios que se tornam velhos e que devem ser jogados fora. Eles são como fundamentos dos sonhos, da liberdade e da felicidade. São mais do que um simples revestimento para os pés. Trazem consigo a possibilidade da beleza e da fartura de horizontes. São protetores da alma e do coração.

Sapatos se tornam velhos sim, como nossos sentimentos. Quanto mais velhos, mais valiosos e mais próximos de nós. Nem os notamos. Vivemos como se eles não existissem e, no entanto, estão sempre ali como alicerce das nossas boas ou más ações. Quando são novos, eles incomodam. Muitas vezes ferem nossos pés. Vivemos uma luta até nos redermos mutuamente. Pois, construir caminhos sem eles é impossível.

Sapatos não deveriam ser jogados fora, mas cremados como partes de nós. Pois, eles são desenhos que enfeitam os pés e a alma. Com eles tocamos o mundo. Com eles encontramos as pessoas. Sentimos o peso do corpo e a leveza do coração. Eles nos protegem do frio, do perigo da estrada, do fogo e dos espilhos. Sapatos sintetizam vidas. Cutucam nosso espírito, quando algo está errado.

Se Deus existe, então ele é um colecionador de sapatos. De histórias humanas. Se ele tiver uma casa, nesta casa ele terá um quarto para cada um de nós e ali neste quarto ele guardará todos os nossos momentos e, com eles, alguns sapatos. Certamente, se assim o for, Deus ficará horas e horas contemplando-os. Pensando em nossa vida, em nossos passos. Se for como um pai e uma mãe que ensinam seus filhos a andar e veem os seus primeiros passos, ele se alegrará, pois se lembrará do tempo em que nos segurava pela mão, até que aprendemos a andar sozinhos. Quantas vezes, ao contemplá-los, Ele não chorará de dor por ver nossos sofrimentos ou por ver que tomamos o caminho errado.

Sapatos têm memórias. Na casa de Deus eles terão alma. Quando estivermos lá, Ele nos mostrará suas relíquias: nossos sapatos. Nossas pegadas, nosso coração, nossa vida. Assim, veremos tudo face a face. Veremos por onde andamos, como andamos e porque andamos. Veremos nossa vida como um grande mosaico de passos entrelaçados. Passos descompassados, vacilantes, dançarinos, felizes, sofridos, risonhos, livres, amorosos….

Ronaldo Sérgio

A felicidade é lenta!

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Sentado à beira da estrada vendo o mundo passar. Vendo as pessoas desenrolando a vida, como uma costureira desenrolando um novelo de linha. Vendo a correria de tanta gente indo e vindo de carro, de taxi, de ônibus, de bicicleta, de moto ou à pé. Vendo as cores e os aspectos de uma vida agitada. E imaginando os traços de seus sonhos.

Sentado à beira da estrada ouvindo o mundo passar. Ouvindo o ruído dos motores, dos pneus e das vozes. Tudo junto numa confusão de dissonantes, sem harmonia e sem ritmo. Ouvindo os gritos de euforia, os desejos mais íntimos. O mundo sem paciência que não suporta esperar. Ouvindo o canto mudo dos bichos, do vento e das águas que perdeu o encanto e a beleza.

Sentado à beira da estrada sentindo-se só. Sozinho com tudo ao seu redor chamando por socorro, por mais vida e paz. Sentindo-se fraco e forte diante da cegueira das pessoas, que correm sem saber para onde e nem por quê. Sentindo, por um momento, que há esperança.

Sentado à beira da estrada procurando felicidade e imaginando-a passar lentamente. Lentidão que engana os corações apressados e orgulhosos. A felicidade não está à mão daqueles que têm a mão cheia das ferramentas inúteis deste mundo. Sentado à beira da estrada… posso te assegurar: A felicidade é lenta como a beleza, o amor e a paz.

Ronaldo Sérgio