Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

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A fé que faz deus existir do nada!

Conto12

Foto do google

Segunda-feira, sentado na beira da cama no silêncio das cinco e meia da manhã, tive vontade de rezar. Não pronunciei nenhuma palavra. Fiquei calado olhando as cortinas da janela ainda fechada. A penumbra lá de fora evitava que houvesse alguma imagem que me distraísse. Quis dizer umas palavras, mas não consegui. Faltava-me algo, na verdade, me faltava alguém, o interlocutor. Senti um vazio. Não um vazio intencional porque eram meus ensejos que me levavam à orar, mas senti o vazio do lugar do outro. Rezar a quem? Com quem falar?

Nesta manhã, Deus não estava perto de mim. Talvez nunca estivesse e todos os meus lamentos e orações passadas não passaram de solilóquios ou monólogos entre meus ‘eus’. Tenho vários. Todos temos muitos “eus” e cada qual mais obsceno do que o outro. Frequentemente, estão resvestidos de uma máscara. Outras vezes, estão todos encavalados em cima um do outro.

Estou assim até agora, sentindo-me desbloqueado e desconectado do mundo da fé que faz Deus existir do nada. O que parece bastante contraditório, pois foi ele que, conforme a sabedoria judaica, nos criou do nada. A fé é mesmo quase desnecessária, neste sentido. Por isso, me recusei a usar o recurso psicológico da fé para me salvar desse momento de angústia. O tremendo e o medonho de Rudolf Otto não me salvaram, pois não havia nada de espantoso e nem de terrível em minha experiência. Nada de Deus, nada do Numinoso. Senti-me só.

O salto da fé que faz aparecer um ser supremo e todo poderoso que nos protege e salva, é uma ilusão. O deus da fé herdada é uma invensão. Uma imagem desnecessária. Uma projeção da alma humana. Um recurso de linguagem. Por que acreditar então? Porque ele é invisível e insondável, alguém diria. Sim, mas estas palavras não acrescentam nada à Deus em si mesmo. São invólucros do espírito humano.

O certo é que eu, nem com minha inteligência e nem com meus sentidos gostaria de forjar um Deus para satisfazer às minhas necessidades. E por mais que tente que ele apareça ou que eu o sinta, não o poderei converncer a existir exclusivamente para mim. Mesmo que eu tome as leis naturais ou teológicas que tentam ‘provar’ sua existência, não consiguirei trazê-lo à luz do dia. Neste sentido, sou seguidor de Freud e Nietzsche.

Ronaldo Sérgio