Há de haver um site ou blog assim!

COnto14

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Estou em casa, na beira do mundo, confiando que pessoas de todos as partes do planeta possam ler esta mensagem. Pessoas de todas as idades, raças, costumes e religiões. Não importa. A maioria delas nunca terei a chance de encontrar. O que não é um problema. A maioria delas eu não conheço e nem conhecerei nunca. Não sei como elas se parecem, nem o que elas desejam e sonham para si mesmas. Também não vejo e nem sinto suas angústias, medos, temores e dores. São desconhecidas, estranhas para mim.

E o que mais me povoa a mente, neste momento, é saber simplesmente que minhas palavras haverão de as encontrar, onde estão e como são. Sem nenhum propósito de as retirar do mundo e nem de trazê-las perto de mim. Sem a intenção de convencê-las a ser como sou e a pensar como penso.

Carrego apenas o desejo de vê-las um pouco menos desconhecidas e estranhas. E que eu possa me ver mais próximo delas. Assim, nos tornaremos mais humanos, descoisificados das pretenções objetivas. Porque, estranhos também têm coração e são gente.

Hoje em dia ficou difícil perceber que quem passa por nós na rua, nas praças e avenidas é um outro como nós. Um ser humano. Parece que nos tornamos imunes a tudo e a todos. Não nos vemos implicados  nas tragédias e dores diariamente informadas nos jornais. Tudo parece falso, fictício. Como as novelas da televisão. E porque somos muitos, não queremos correr o risco de ter empatia por alguém.

Estamos tão distantes e solitários uns dos outros. Construímos muros invisívies. Obstáculos quase sempre intransponíveis ao outro. Tudo gira em torno do pessoal, do privado. Tudo gira ao redor do próprio sonho a qualquer custo. Estamos ilhados. Estamos lá onde estão os ‘meus’ desejos, necessidades, dores e angústias. Desejamos o que desejamos, e não vamos dar o braço a torcer até que tenhamos. Onde mora o outro, então?

Há distâncias entre a gente. Espaços. Montanhas. Rios e rios de terra e mato e perigo. Há inabitados campos. Somos perfeitos desconhecidos uns dos outros. Distâncias que haveriam de ser atravessadas, pois temos tempo para isso. Mas, nada é grátis. Queremos gratificações. O outro deixou de ser o que é, destino. Tornou-se meio. Tornou-se pedra  no meu sapato. Tornou-se dinheiro. Likes. Indiferenciado, muitas vezes. Porque desejamos o que desejamos e tem que ser agora.

Desbravar espaços para construir um relacionamento genuinamente forte e estável com o outro é impossível. Quantas redes de relacionamento pela internet fabricando ilhas e aumentando o isolamento. Nada de interação. Pessoas bebem o que curtem e clicam sobre a palavra curto, descatam o que não lhes interessa e se sentem satisfeitas. Muitas redes de interação criam interativos. Pessoas não.

Duas palavras faltam na mídia, blogs, podcasts e websites: zelo e cuidado. Não zelamos uns pelos outros. Nem tentamos. Não cuidamos. Não queremos construir, queremos tudo pronto e preparado para o uso. Quase sempre coisas descatáveis.

Sonhamos com amores perfeitos, com histórias surpreendentes e final feliz. Queremos a felicidade. Mas, não a procuramos onde está. Queremos um caminho já feito. Não devemos perder tempo com algo novo, com o outro que se desponta em meu horizonte. Com alguém que me incomoda mostrando meus limites. Com uma pessoa que não sou eu. Queremos apenas satisfazer o próprio ego. Dois mil likes sobre minhas fotos.

Mas, há de haver um site assim, que ainda não encontrei. Que traga pessoas mais próximas umas das outras. Que não as afaste do essencial. Que não as coisifique e nem descontrua valores.

Ronaldo Sérgio

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A fé que faz deus existir do nada!

Conto12

Foto do google

Segunda-feira, sentado na beira da cama no silêncio das cinco e meia da manhã, tive vontade de rezar. Não pronunciei nenhuma palavra. Fiquei calado olhando as cortinas da janela ainda fechada. A penumbra lá de fora evitava que houvesse alguma imagem que me distraísse. Quis dizer umas palavras, mas não consegui. Faltava-me algo, na verdade, me faltava alguém, o interlocutor. Senti um vazio. Não um vazio intencional porque eram meus ensejos que me levavam à orar, mas senti o vazio do lugar do outro. Rezar a quem? Com quem falar?

Nesta manhã, Deus não estava perto de mim. Talvez nunca estivesse e todos os meus lamentos e orações passadas não passaram de solilóquios ou monólogos entre meus ‘eus’. Tenho vários. Todos temos muitos “eus” e cada qual mais obsceno do que o outro. Frequentemente, estão resvestidos de uma máscara. Outras vezes, estão todos encavalados em cima um do outro.

Estou assim até agora, sentindo-me desbloqueado e desconectado do mundo da fé que faz Deus existir do nada. O que parece bastante contraditório, pois foi ele que, conforme a sabedoria judaica, nos criou do nada. A fé é mesmo quase desnecessária, neste sentido. Por isso, me recusei a usar o recurso psicológico da fé para me salvar desse momento de angústia. O tremendo e o medonho de Rudolf Otto não me salvaram, pois não havia nada de espantoso e nem de terrível em minha experiência. Nada de Deus, nada do Numinoso. Senti-me só.

O salto da fé que faz aparecer um ser supremo e todo poderoso que nos protege e salva, é uma ilusão. O deus da fé herdada é uma invensão. Uma imagem desnecessária. Uma projeção da alma humana. Um recurso de linguagem. Por que acreditar então? Porque ele é invisível e insondável, alguém diria. Sim, mas estas palavras não acrescentam nada à Deus em si mesmo. São invólucros do espírito humano.

O certo é que eu, nem com minha inteligência e nem com meus sentidos gostaria de forjar um Deus para satisfazer às minhas necessidades. E por mais que tente que ele apareça ou que eu o sinta, não o poderei converncer a existir exclusivamente para mim. Mesmo que eu tome as leis naturais ou teológicas que tentam ‘provar’ sua existência, não consiguirei trazê-lo à luz do dia. Neste sentido, sou seguidor de Freud e Nietzsche.

Ronaldo Sérgio

Cinzelar a alma.

Foto do google

Existir é decodificar a forma
a massa informe que somos
e usar o pó restante
que ficou nas mãos de Deus.

É quebrar a camada dura
a pele petrificada
o reverso que o outro atura
da face falsificada.

Não é revestir a borra
insatisfeita de tudo
das lindezas toscas do mundo
do luxo que nada honra.

Existir é reunir a poeira
com candura nas mãos
e cinzelar a alma
com o cinzel de Deus.

É lavar-se da sujidade
antes que a morte chegue
sem medo e sem aflição
de ser o que é.

Não é fazer da massa
almificada com o sopro
uma compra, uma venda, uma traca
e depois jogá-la fora
descartável ou reciclável.

Existir é sair pra fora
pra fora de si,
do mundo das coisas
que atravancam a existência
e embotam o ser.

É mais que viver
ou deixar a vida passar,
bestas também vivem
e nunca se desembestam.

Existir é ser pro outro
aquela massa diferente à nossa frente
descompassada, informe como nós,
capaz de ser o que não somos
e de dizer não,
pois é massa que fala.

Não é querer moldar alguém,
nem a Deus como desejamos,
nem fazer ramal do mundo
com nossas vontades infantis.
Uma terceira perna
pra justificar nossos sonhos.

É encontrar o pó restante
que ficou nas mãos de Deus
pó que ele vai jogando aos poucos
cada dia, um atrás do outro
para que se complete a obra
e a massa informe
se torne o que não é e exista
ex-bicho, ex-coisa, ex-mundo, ex-monstro.

Existir é moldar a massa inacabada
e se tornar humano…

Ronaldo Sérgio

Liberalismo e individualismo!

A filosofia de Aristóteles conheceu três períodos de florescência. O primeiro foi no mundo antigo, no tempo em que o filósofo vivia e trabalhava. O segundo período foi mais longo, começou logo depois de sua morte e durou até o século sexto depois de Cristo. O terceiro começou na idade média tardia, permanecendo até o século dezessete, na europa ocidental.

Depois do século dezessete a filosofia de Aristóteles foi perdendo cada vez mais terreno, dando lugar à filosofia moderna. Apesar disso, alguns elementos ainda têm uma importância muito relevante para os nossos dias e que nos ajudam a fazer uma reflexão sobre a atualidade. Um destes elementos é o forte acento de seu pensamento em relação à concepção de que o ser humano é um ser social por natureza. Muitos sociólogos e filósofos de hoje recorrem à este aspecto para justificar suas críticas ao liberalismo e individualismo da sociedade em que vivemos.

O flúxo das mudanças atuais não nos deixa pega para definir precisamente o que é ou o que não é a nossa sociedade. Mesmo o ser humano, em sua fluidez cotidiana e em sua falta de fixação no mundo da vida, não tem uma única fisionomia. Como consequência os laços e vínculos sociais e comunitários não se caracterizam mais pelo contato corpo a corpo das pessoas, mas via-a-via. A virtualidade e a coisificação da pessoa são alguns aspectos destes laços via-a-via, nos quais a pessoa passa a ser considerada apenas um número, uma estatística, uma renda, um desejo, um endereço eletrônico, uma foto bonita, etc…. Talvez devéssemos chamar esta sociedade de “sociedade inexistente”, pois os vínculos via-a-via não pressupõem um ethos, uma casa e nem uma ética. O que são elementos básicos de uma sociedade interpessoal.

Mesmo a linguagem, uma característica essencial para os laços sociais, tem se tornado um dito pelo não dito. É bom lembrar que a linguagem não é um elemento artificial de socialização como aqueles criados pelo sistema liberal e pelo individualismo. A linguagem é um meio simbólico que pressupõe o corpo, a mente e o espírito, a pessoa em sua totalidade. Em sua natureza mais própria ela é interpessoal. Não objetiva e nem subjetiva a realidade da vida da pessoa, mas cria o ethos, a casa à partir da intersubjetividade, trazendo a possibilidade de uma ética social.

À primeira vista, parece-nos que o liberalismo e o individualismo vieram para ficar e que, atualmente, se tornam cada vez mais uma maneira fixa de ser e de compreender o mundo. Com palavras mais simples e vulgar, essa parece ser a única via permanente para a felicidade humana. O que é bastante contraditório com o que havíamos dito no parágrafo anterior à respeito das mudanças e da fluidez da vida social de hoje. O que é fixo não pode fluir e nem mudar e permanece como estrutura que define uma maneira de viver, carregando diferentes consequências consigo mesma. Mas, ainda não podemos afirmar que o individualismo e o liberalismo realmente se fixarão como modo de ser neste mundo. O que sabemos é que em sua estrutura interna, tanto um como o outro, são falhos. Ou seja, em sua estrutura enquanto mentalidade global eles têm a tendência de se destruir a si mesmos.

Embora o individualismo e o liberalismo levem o ser humano à inconstância social, política, psicológica, religiosa, etc; sabemos que as pessoas procuram meios para se fixar e se estabelecer como família e comunidade social. Esta inclinação humana de ser com o outro, de estar com alguém, de se solidarizar e viver com… permanece procurando meios de se sobreviver. Contudo, usando meios liberais, individuais, fragmentários por natureza. Por isso, vemos a fragilidade das políticas sociais nacionais e internacionais que dizem respeito às relações de ajuda mútua e cooperação. No ambiente mais pequeno e localizado, o que vemos são famílias desestruturadas procurando uma terceira via para sobreviver enquanto família. Porém, os meios são sempre falhos, pois em si mesmos instáveis e fracos. São como pernas-de-pau.  São apenas para o hoje, para o amanhã ou, no máximo, por um ano. Os meios, os vínculos via-a-via têm prazo de validade, usando uma linguagem da economia.

O caminho mais seguro a ser proposto consiste numa mundança de parâmetros e de mentalidade. Junto com isso, temos de propor outros meios e vias que não sejam aqueles do liberalismo ou individualismo. Propostas concretas que devem nascer das ciências humanas e sociais e que estejam fundadas naquilo que permanece como estrutura: a tendência humana inata de se socializar, de viver com os outros e para os outros. O ser humano não é um ser social por natureza, mas por tendência.

 Ronaldo Sérgio