Chorando

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Importunar o vento não posso
e pedir-lhe que te acompanhe
que não se afaste de ti
que segure os seus passos no calar da noite
que toque o seu corpo purificando o seu amor
e nem implorar-lhe que te conte os segredos
dos meus pensamentos.

Não quero discutir com o sol
que entra pela janela
e me deixa só,
nem com as tristes garoas
a tocar minhas flores no quintal
chorando por ti
desejando-te o teu perfume
o balanço do seu andar
o tom da sua voz.

Só quero rogar aos riachos para que voltem
que retirem a escuridão do seu caminho
para te pedir perdão
e acreditar que posso ti amar
todas as tardes
e todas as manhãs.

 

Foto de Jale Elaj
Poema de Ronaldo Sérgio

 

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São sonhos

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Antes que os sonhos terminem
no enredo da noite, já é dia.
Numa oca sem portas e janelas
os ventos vão e vêm
como nossas sensações
vagam pelo nosso corpo.
São sonhos.
Seus realces ficam o dia inteiro
nas rasuras da nossa memória
no riso, na finura do olhar.
É  lindo olhar o céu
ver que o dia também traz os seus
que como fogo
incendeiam esperanças.
O céu fica tão azul
que o infinito entra dentro da gente.

Ronaldo Sérgio
Foto de Rivaldo Mauro

Segure minha mão

Foto

– Não me deixe completar o ciclo do esquecimento. Segure minha mão. Vamos!

E saltaram juntos.

1942, lembrou-se. Estava na cozinha, toda corada, preparando o café. Era a sua primeira manhã em casa e sozinha com ele. Feliz ao vê-lo se aproximar trazendo seus chinelos azuis, pisando seguro e usando todo espaço que tinha, deu-lhe um beijo dizendo ‘bom dia, meu bem!’. Junho e o frio entrava pela janela semi-aberta.
O sol ainda fraco da manhã não esquentara o clima. Mesmo assim queriam passear. Dizer que estavam ali. Vivos. Casados para sempre. Vestiram-se bem agasalhados, aos toques sutis das mãos. O silêncio que, às vezes, cortava o balbuciar das palavras de afeto ainda não incomodava. Era o charme.

-Pronta?
-Sim, vamos.

Fecharam a porta. Deram-se as mãos. Olhares sorridentes. Pularam. O primeiro e o segundo.
A lentidão das coisas boas faz os anos passarem muito rápido. Dia após dia, os ritos e as surpresas vão se entrelaçando, como a beleza e o perfume das flores. Saiam quase sempre juntos de casa. Desciam as escadas sempre aos pulinhos e de mãos dadas, desde aquele primeiro dia.
Estivesse tudo bem em casa ou houvesse desentendimento entre eles, não importava. Aquele momento era tudo. O elo, a restauração do vínculo. A re-cordação do amor. A volta à fonte. O alforge das coisas boas da vida a dois. Os pulinhos nas escadas. De mãos dadas. Até os vizinhos conheciam a brincadeira. Anos e anos.

Mas naquela manhã, uma dor imensa comprimiu-lhe o peito. Chorou por dentro deixando as lágrimas caírem. Ele não estava mais ali ao seu lado.

Foto de Jale Elaj – Google+

Ronaldo Sérgio

Óculos quebrados

Conto23

Foto do google

A angústia é um trecho inóspito. Desertada do sentido que os desejos projetam. Assombra o olhar da gente. Faz ver o que dói. O que destroça por dentro. Abafa. Abre as tramelas da alma que, como janela batendo contra o vento, se fere a si mesma.
Viver é sofrer. Reunir retalhos a cada dia. Solitário e com o mínimo de luz. Neste mundo, como se existissem outros, não há outro caminho. Apressamo-nos a dar razão pra vida. Estudamos, nos casamos, temos filhos, fazemos faculdade, construímos casas… Damos sentido ao sem sentido. Forjamos a vida com a beleza. Com dinheiro compramos bem-estar. Mas, a vida é um poço vazio. Em si mesma não traz nada. O que achamos que é, é adereço, adorno. Apenas enfeite.
Depois de vivida, é como óculos quebrados. Colados com fita, feios. Ainda utilizáveis. Sentido? Sim, um sentido bruto. Tão grosseiro que fere. Para o outro que os vê no rosto da gente parece uma aberração. Mas, bruto é sentir-se brutalizado! Como se os mesmos óculos estragados fossem olhos perdidos. Furados. Doentios. À vista, assim no duro. Cru. Exigindo algum sentido. Vertendo lágrimas escondidas lavando o rosto. Aberrados, fora do padrão de beleza. Sem significado ao mundo. Sem valor. Valor que define sentido.
Estranho quando me olhava. Um senhor alto e de óculos. Algo o atraía, o deixava angustiado. Sua alma se debatia. Abafada não encontrava sentido no que via. Estava como que assombrado. Aberrado por dentro. Olhava e olhava, instigado a virar-se e a olhar de novo. Nada dizia. Por um instante ficou perdido num trecho inóspito. Se virava para um lado e, depois, para o outro. Entrava no bar e saía e olhava outra vez. Mas, estranho era o outro que, assim no soco, ali na rua esperando, despreocupado, trazia no rosto seus óculos quebrados…

Foto2

Rancho do Peregrino

 

Ronaldo Sérgio

Tramela de minha alma.

Conto20

Foto do google

 

Ah, tramela de minha alma,
os sinais das mãos
caleijadas e doces
ficaram pasmadas em ti
te fizeram girar e girar
como giravam meus sentimentos
e minhas fantasias.

Ah, tramela de minha alma,
que fecha janelas
aquecendo meu ser
entre as flores e os sonhos
contra as ilusões dos ventos,
me jogando nas sombras
de amores ternos
como as emoções cálidas
no frio de inverno.

Ah, tramela de minha alma
marteladas em dias de sol
moldaram sua face meiga
e sua firmeza no olhar.
Tramela que rodopia
separando as noites
e anunciando o dias.

Ah, tramela de minha alma
fechadura feita de dor
que isola e obscurece
e deixa lamuriosas histórias
penduradas em meu semblante.

Oh, tramela de minha alma
fizeste de mim um mundo
um caminho, uma casa, uma fonte
que tranca e destranca, abre e fecha
que traz a luz, a sombra e as trevas

Ah, tramela de minha alma
que tramou meu sorriso assim
minha face e minha casa
meu deus e meu rasto
limitando o meu amor
que quase viu o fim
encarcerado num quarto.

Ronaldo Sérgio

Briga entre irmãos!

“Não quero mais te ver, nunca mais”,
foi o que disse ao sair de casa.
E saiu revirando essas palavras mil vezes na mente,
respirando o ar quente daquela tarde,
arrancando a bicicleta do lugar.

Sentia o coração sangrar,
Era como se estivesse, por livre capricho seu,
derrubado uma camisa branca,
limpa, embora molhada, sobre a estrada empoeirada.
Deveras, estivesse mais seca ainda,
a estrada, o peito, as palavras que dissera,
era o seu desejo,
para que se sujasse mais.

A velha bicicleta, outrora recostada ao paiol,
empurrava-o ladeira abaixo,
nem olhava pra trás,
deixando-se levar por ela, pelo caminho,
pela bicicleta, pela tarde ensolarada, “quem dera”,
pela crua desolação que sentia agora
ao sair de casa sem promessas,
como uma fera devorando uma presa,
rasgando a raiva, a dor e o amor
em fiapos, em fiapos de nada.

A irmã, triste coitada e arrependida,
olhou pela janela, olhos pequenos,
via o irmão sumir atrás do morro,
consternado, cortejando a dor.
Ía com ele, sem que soubesse que ía indo
sentada na garupa daquelas palavras.
Mas ali, atrás da janela, como a distância,
aumentava a culpa dela e a vontade de gritar:
“Me perdoa, foi sem querer, gosto de você”.
Mas quem gritava era a mãe, lá fora:
“toma conta do arroz pra mim, já volto.”

Abriu a tampa da panela
Como o vapor, sairam lágrimas de seus olhos,
Chorou…até o tempo ficar maduro
depois não chorou mais,
já tinha crescido, era gente grande.
E o irmão também,
que nunca mais voltou.

Ronaldo Sérgio

Minha janela está aberta para o infinito!

Minha janela está aberta para o infinito, para a imensidão das possibilidades da vida. Minha casa é vizinha da casa de Deus e, por isso, reconheço a minha esperança e nunca me engano em minha fé. Talvez haja momentos de escuridão, pois o sol se põe todos os dias atrás do morro. Porém, toca minha alma por saber que o mesmo sol se põe diante da casa de Deus. Ele é solidário comigo em tempos difíceis.

Minha janela está aberta para o infinito, para as pequenas cores e sabores deste mundo. Tenho sempre algo aos meus visitantes inesperados. Adoro ser surpreendido. Deus sabe disso. Embora seja simples, ao que tenho sou sempre grato. Todos os dias louvo pela companhia silenciosa do meu vizinho, que sempre passa por aqui sem chamar a atenção. Aquele que chamo de meu Senhor.

Minha janela está aberta para o infinito, para sentir a brisa suave das tardezinhas. A brisa do Espirito de Deus que não me deixa fechá-la nunca.

Ronaldo Sérgio