Mãe

conto35

Gerar

Amaste-me mais que tudo
tecendo-me em teu ventre
Abraçaste-me com terna ventura
de amor eterno
sofrendo uma dor agreste
fazendo-me amar-te sempre.

Nascer

A dor que em mim doía
tremendo nos teus braços
era o desamparo d’alma
lenta e frágil
amparada em teu regaço

Crescer

Sentindo-te outra
resvalando em ti meu corpo
entre afagos e afetos
deixaste sentir-me um outro
entranhando n’alma
seus toques de amor, oh mãe.

Cuidar

Os trechos que mais chorava
era a dor da solidão
destronada dos cuidados
desejando mover mundos
pra tirar minha aflição
curava-me ver-te assim
entre mimos amando-me.

Morrer

O tempo da vida é o corpo
sem hora é a alma
cicatrizada de amor
afigurando o eterno
no peito meu que ficou
seu amor é meu amor,
pra sempre.

Foto de Pinterest
Poema: Ronaldo Sérgio

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Enjeitados de Deus

Conto33

Poema inspirado no romance de Eça de Queirós: O crime do padre Amaro

Dorme,
fria e pálida
estendida na cama
esquecida dos beijos
e vazia de sangue
do choro do filho
arrancado de si.

Vivia
corroída de horror
da culpa e do inferno
sem amparo de Amaro
que a abandonou.

Sofreste,
sim, por amor
com o peso do céu
e o fardo do mundo
a julgando feroz
de seu rebento extorquindo
o direito da vida
enjeitados de deus.

Crime
confabulado com rezas
dum padre que às pessas
covarde e sem dó
matou: mãe e filho.

Ronaldo Sérgio

Há uma resenha muito bem feita no blog IDEIAFIX

Ao pé do fogão

Post

Moldaste-me nos seus arredores
com o peso de sua alma
contornada pelo fogo.
nas manhãs de inverno.

Amassaste-me por dentro
com o toque de sua voz
e seus tons de dor
segurava-me segurando lágrimas.

Em risos destampava-me
retocando o cheiro.
Revirada de esperanças
e os gritinhos dos filhos.

Era assim ser mãe
ao pé do fogão
agarrada à vida.

Ronaldo Sérgio

 

 

Com Deus dançar ciranda!

Lutava comigo mesmo, hoje de manhã. Fiquei com muito receio em publicar esta música. Primeiro, porque não sou cantor. Segundo, porque foi gravada de forma muito rustica, na cozinha de casa e com o canto dos pássaros. Terceiro, porque a música é minha. Enfim, ouso publicá-la.

 

Ronaldo Sérgio

A loucura!

“Quando ‘cê vem vê a gente?”
Se soubesse, sentindo a morrinha do quarto, diria:
“Talvez daqui uns dias,
quem sabe nunca mais depois de uns dias”,
pensava com dificuldade.
Parecia pensamento temporão.
Deixaria a consternação tomar conta
e, sentindo ainda a morrinha do quarto,
ali ficaria pra sempre, coçando a virilha,
sem receios pelos seus oitenta anos,
quem sabe!?

“Não sei, mãe! Depende do meu emprego.”
Emendou as coisas rasgadas na mente,
grosso, rude por dentro, sentindo-se um porco.
Virando-se bruscamente
tirou a toalha molhada da porta,
e num gesto de emborco
com nada mais no copo,
jogou-a no lixo, no saco preto de orco,
“pro inferno, eta morrinha do inferno,”
“eta morrinha do inferno”, repetia!

“Ah, tá bom, vem logo! Pro natal, se der.”
Agora, caminhava pela sala
também ali, “que danação!”, dizia.
O cheiro queria grudar em seu corpo,
a catinga dos sapatos em frente ao sofá,
era o achaque que herdara. Mas, de quem?
Da mãe não era.
O pai era lúcido.
Do mundo, da vida, da rua…
Vivia num muquifo, em mixórdias vivendo.
Solteiro ainda, desmamado, desamado.

“Tudo bem mãe! Acho que vou sim.”
Tudo empilhado na pia,
pratos, colheres, garfos e restos no fogão.
Estava preso em seu mundinho,
“Diabos” dizia em silêncio.
Ao telefone, a mãe percebia os vãos,
os buracos deixados na conversa.
Conhecia os anjos da preguiça,
dominando a vida do filho, o desajeito.

“Volte, filho. Volte pra casa!”
“Agora não mãe! Estou bem aqui!”
Sentiu-se infeliz, porque amado.
Quis voltar, dar o braço a torcer,
mas exigia sempre um quinhão a mais,
um pouco mais de amor.
Era sua maldição, sofrimento e morte.
Lavou os pratos,
Arrumou a sala.
E ficou… até ficar louco mesmo,
depois da morte da mãe e do pai.

Ronaldo Sérgio

O fogo do fogão a lenha

Fogão a lenha da casa dos meus pais

.

Há imensos cachos de detalhes espalhados aqui e ali em minhas lembranças. Lembranças? Ah… que pena se o fossem. Pois lembranças deixam exatamente de ser o que são quando lembradas. Tornam-se realidade. Que bom, assim os são. E foi nesta manhã chuvosa de domingo, como se eu estivesse colhendo cachos de uvas maduras e comendo-as, sentindo o sabor da casca estourando-se entre meus dentes e enchendo a minha boca com seu suco delicioso, que fui vendo, ouvindo, sentindo o cheiro e o calor do nosso velho fogão a lenha.

Na vida da gente, há porções de peripécias de grande valor, embora sejam simples. Cândidos gestos da minha mãe, por exemplo, que deixava o seu lugar no fundo da taipa do fogão pra gente se sentar, porque fazia muito frio. Palavras sóbrias do meu pai, enquanto aquecia suas botas, calçava-as e ia pro curral tirar leite. Alegres brincadeiras entre nós, ainda crianças, com a caixinha de fósforo. Ou pequenas desavenças para se sentar no melhor lugar perto do fogo. O fogo que confortava a todos, sem diferença de idade ou de gosto.

O fogão a lenha era (e ainda é) como o coração da casa dos meus pais. Infinitas possibilidades trazia. Criava laços entre nós. Era um espaço de dar prosa, contar histórias, conversar e discutir. Era ali ao redor do fogo que nasciam e morriam as raivas da gente, o mau humor, a agressividade, a falta de respeito e de regra, o egoísmo, as ruindades que nascem conosco ou que vamos assimilando do mundo lá de fora. O fogão a lenha ajudava a família a renovar as coisas velhas, mau resolvidas, com o fogo do respeito e da compreensão, do amor e da esperança.

Que pena que a minha filha crescerá sem ter, literalmente falando, um fogão a lenha em casa. Não por capricho meu, nem da minha esposa. Não porque não queiramos, nem por falta de condições. Simplesmente, é impossivel tê-lo no momento. Como substituí-lo, então? Como criar espaços em casa, que sejam assim como aquele em que cresci?

Pro inferno com as modernas invenções, que destroçam possibilidades, que atrapalham a convivência e que esfriam as relações e quebram laços familiares.  Pro inferno com as beleza tecnológicas e com as facilidades de hoje. Se há coisas positivas nelas? Ah, sem dúvida. Mas, convenhamos, fogão a lenha virtual não existe. Existem caminhos. Sim, as invenção/tecnologias podem ser caminhos que nos levam ao fogão, àquele espaço de vida. Mas, substiuí-lo, nenhuma tecnologia conseguirá.

Meu desejo hoje, ao reviver a força e a importância do sentar-se na taipa de um fogão a lenha e tomar o café quentinho que a minha mãe ou o meu pai preparou, não é outro senão que minha filha também conheça o calor dos meus abraços, o tom da minha voz, a força dos meus passos, a beleza da minha alegria e minha preocupação por ela. Meu desejo é que ela tenha sim um fogão a lenha em casa, mas não virtual, nem televisivo e nem telefônico. Que ela tenha um pai e uma mãe em casa, e que nós nunca deixemos o fogo do fogão a lenha do nosso amor se apagar.

Ronaldo Sérgio

(Razões por que meu blog se chama Rancho das Crônicas)

Beco das putas

Nada como presentear meus leitores, no primeiro dia do ano, com uma poesia. Desejo a todos um ano sem estes becos da vida, mas cheio de coisas boas, alegrias, com horizontes abertos e bem planejados. Avantes…

Foto do google

 

Tinha que encontrar um lugar.
Estava desesperado
com a dor pressionando a bexiga.
Andava olhando aflito
aqui, ali também não.
Onde? Onde?

E o beco salvou a pele dele.
O beco das putas,
assim era chamado o lugar.

“Ai! Que alívio!” sentia
e que desgraças povoavam sua mente.
“Aquele senhor me paga”,
dizia às paredes fedorentas.

Bebera um pouco
sim, sempre bebia um cadinho a mais.
Mas, ninguém tinha o direito
de dizer-lhe aquelas palavras.
“Nem por brincadeira”.

“Sua bicha!”
rosnava em uníssono
como um cão.
“Bicha é o avô dele!”

Era uma pessoa humilde
simples e discreta.
Dizer palavrões,
ah, não era o seu feitio.
Na frente dos outros, não.

Como um bom cozinheiro,
cozinhava tudo numa panela
dentro da sua cabeça
e deixava de molho a raiva,
que tinha de si mesmo
por não reagir.

A sua única delícia
era a vontade descontrolada
de mijar no mundo todo,
no pai muito rude,
na mãe controladora,
nos irmãos que caçoavam dele,
nos tios, primos,
conhecidos e desconhecidos,
nos olhares zombadores
nas palavras mau ditas
no patrão, no dono do bar,
e, naquele momento,
de mijar no senhor,
que desgraçou o seu dia.

Ronaldo Sérgio