Segure minha mão

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– Não me deixe completar o ciclo do esquecimento. Segure minha mão. Vamos!

E saltaram juntos.

1942, lembrou-se. Estava na cozinha, toda corada, preparando o café. Era a sua primeira manhã em casa e sozinha com ele. Feliz ao vê-lo se aproximar trazendo seus chinelos azuis, pisando seguro e usando todo espaço que tinha, deu-lhe um beijo dizendo ‘bom dia, meu bem!’. Junho e o frio entrava pela janela semi-aberta.
O sol ainda fraco da manhã não esquentara o clima. Mesmo assim queriam passear. Dizer que estavam ali. Vivos. Casados para sempre. Vestiram-se bem agasalhados, aos toques sutis das mãos. O silêncio que, às vezes, cortava o balbuciar das palavras de afeto ainda não incomodava. Era o charme.

-Pronta?
-Sim, vamos.

Fecharam a porta. Deram-se as mãos. Olhares sorridentes. Pularam. O primeiro e o segundo.
A lentidão das coisas boas faz os anos passarem muito rápido. Dia após dia, os ritos e as surpresas vão se entrelaçando, como a beleza e o perfume das flores. Saiam quase sempre juntos de casa. Desciam as escadas sempre aos pulinhos e de mãos dadas, desde aquele primeiro dia.
Estivesse tudo bem em casa ou houvesse desentendimento entre eles, não importava. Aquele momento era tudo. O elo, a restauração do vínculo. A re-cordação do amor. A volta à fonte. O alforge das coisas boas da vida a dois. Os pulinhos nas escadas. De mãos dadas. Até os vizinhos conheciam a brincadeira. Anos e anos.

Mas naquela manhã, uma dor imensa comprimiu-lhe o peito. Chorou por dentro deixando as lágrimas caírem. Ele não estava mais ali ao seu lado.

Foto de Jale Elaj – Google+

Ronaldo Sérgio

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Sua única delícia era contar histórias

Velho1

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Pano de fundo era o sol segurando o céu. Algumas mechas de nuvens ao longe pareciam coladas atrás das orelhas dele. O poste de luz confiscava seus gestos, aguardava uma queda de repente. Nada acontecia. E o vento levava sua alma para longe, cada vez mais perto de si mesmo. As últimas gotas de orvalho ainda estavam sobre seus ombros. Cabelos espatifados pela brisa queriam varrer-lhe da mente a dor. Estava em pé.

Senti-me perplexo. Era um senhor de 80 anos, parado na minha frente. Mastigava sem parar. Parecia mastigar o mundo. Tinha apenas um dente já bem amarelado. Seu jeito de falar era como tecer curvas. Bordava horizontes, como a paisagem daquele dia. Às vezes, falava para si mesmo. Falava sem ouvir o tom da voz. Nem o eco ouvia.

O que lhe segurava em pé era a sua angústia. O sorriso dele me confundia. Dissera que tinha filhos por ai. Onde estavam ou moravam? Nem perguntei. Já tinha entendido. “Por ai…” era o resumo das palavras “não me pergunte, porque também não sei’. Morava numa cabana que se enchia d’água em tempos de chuva. Pagava aluguel. Não pediu nenhum trocado a mim. Apenas falava comigo naquela manhã linda de sábado. Economizar palavras não era o seu feitio. Contou histórias.

Estava em casa, certa vez, e fora chamado pela polícia. Intimação? Não, não! Fora chamado para tentar tirar a dor das costas de uma moça. Chorava de dor. Não tinha remédio que ajudasse. “Entrei na sala. Era uma jovem bonita. Pedi pra ela vestir a camisola. Moço!!!! Você nem imagina!? Nem tive tempo, ela deixou a roupa cair. (‘Mas não era pra ser na minha frente). Ma não é que a moça ‘tava sem calcinha…..”.

Tinha o jeito estranho, muito estranho de terminar suas histórias. De repente, parava e não dizia mais nada. Depois prosseguia. Era uma outra história.

“Uma vez me chamaram pra ajudar uma mulher grávida que estava com muitas dores nas costas. Estava com um barrigão. Precisava ver. Comecei a fazer massagem e, assim do nada, a moça deu um grito. Ai…! Levei um susto, o senhor nem sabe. E disse a ela: ‘não vai parir agora não hem?!….”.

Era o seu estilo. Tirar a dor dos outros. Narrar a vida pedaço por pedaço. Deixar o principal faltando. Jogava o passado lá na frente. Como se nunca tivesse grandes sonhos e nem grandes planos na vida. Nada sobrava, nada era artificial em suas palavras.

Seu corpo completava o oco de sua alma. Se caísse o sol naquela hora, saberia narrar o próximo amanhecer com a lua. Estava sempre abastecido do que haveria de vir. Esperava o ônibus para a cidade. Esperava os fatos se aproximarem dele. Era como se estivesse o tempo todo no passado. Comendo o que se passou. Vivendo dele. Tinha umas moedinhas na mão. Nada mais era necessário. Sua única delícia era contar histórias.

 

Ronaldo Sérgio

A fé que faz deus existir do nada!

Conto12

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Segunda-feira, sentado na beira da cama no silêncio das cinco e meia da manhã, tive vontade de rezar. Não pronunciei nenhuma palavra. Fiquei calado olhando as cortinas da janela ainda fechada. A penumbra lá de fora evitava que houvesse alguma imagem que me distraísse. Quis dizer umas palavras, mas não consegui. Faltava-me algo, na verdade, me faltava alguém, o interlocutor. Senti um vazio. Não um vazio intencional porque eram meus ensejos que me levavam à orar, mas senti o vazio do lugar do outro. Rezar a quem? Com quem falar?

Nesta manhã, Deus não estava perto de mim. Talvez nunca estivesse e todos os meus lamentos e orações passadas não passaram de solilóquios ou monólogos entre meus ‘eus’. Tenho vários. Todos temos muitos “eus” e cada qual mais obsceno do que o outro. Frequentemente, estão resvestidos de uma máscara. Outras vezes, estão todos encavalados em cima um do outro.

Estou assim até agora, sentindo-me desbloqueado e desconectado do mundo da fé que faz Deus existir do nada. O que parece bastante contraditório, pois foi ele que, conforme a sabedoria judaica, nos criou do nada. A fé é mesmo quase desnecessária, neste sentido. Por isso, me recusei a usar o recurso psicológico da fé para me salvar desse momento de angústia. O tremendo e o medonho de Rudolf Otto não me salvaram, pois não havia nada de espantoso e nem de terrível em minha experiência. Nada de Deus, nada do Numinoso. Senti-me só.

O salto da fé que faz aparecer um ser supremo e todo poderoso que nos protege e salva, é uma ilusão. O deus da fé herdada é uma invensão. Uma imagem desnecessária. Uma projeção da alma humana. Um recurso de linguagem. Por que acreditar então? Porque ele é invisível e insondável, alguém diria. Sim, mas estas palavras não acrescentam nada à Deus em si mesmo. São invólucros do espírito humano.

O certo é que eu, nem com minha inteligência e nem com meus sentidos gostaria de forjar um Deus para satisfazer às minhas necessidades. E por mais que tente que ele apareça ou que eu o sinta, não o poderei converncer a existir exclusivamente para mim. Mesmo que eu tome as leis naturais ou teológicas que tentam ‘provar’ sua existência, não consiguirei trazê-lo à luz do dia. Neste sentido, sou seguidor de Freud e Nietzsche.

Ronaldo Sérgio