Enjeitados de Deus

Conto33

Poema inspirado no romance de Eça de Queirós: O crime do padre Amaro

Dorme,
fria e pálida
estendida na cama
esquecida dos beijos
e vazia de sangue
do choro do filho
arrancado de si.

Vivia
corroída de horror
da culpa e do inferno
sem amparo de Amaro
que a abandonou.

Sofreste,
sim, por amor
com o peso do céu
e o fardo do mundo
a julgando feroz
de seu rebento extorquindo
o direito da vida
enjeitados de deus.

Crime
confabulado com rezas
dum padre que às pessas
covarde e sem dó
matou: mãe e filho.

Ronaldo Sérgio

Há uma resenha muito bem feita no blog IDEIAFIX

Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

Deus mutilado

Zé Veloso2

Foto de Zé Veloso

Confesso.
Deus não morreu.
Está mutilado.
Mutilaram-no longe do céu,
dando-lhe um lugar perto de mim
fisgando a minha pele.
e flagrando a minha dor.

Toda escuridão atrás do morro
caiu aqui dentro
em mim, fazendo preces,
enquanto cantavam ladainhas
do sofrimento humano
vestindo-o com elas,
com mazelas e mazelas

Aleijaram meu humor.
Zombaram de minha dor.
Insuportável dor
que segura a vida
que sustenta silenciosa
minha alma quase cativa
insatisfeita de tudo
agarrada ao mundo
à procura de Deus.

 

Ronaldo Sérgio

Poemas que nascem do nada

DSCI3640

Goteiras

Chove pesado em meu quintal
apenas em meu quintal
mas não deixo ninguém notar
as goteiras em meu semblante
fazendo jorrar pedaços de minha alma.

Cipós

Minha alma é torta como cipós entrelaçados.
Um desejo aqui, uma sombra ali,
uma vontade nunca satisfeita,
sonhos espedaçados,
a esperança e o amor.

DSCI3658

Morte

Sem chances…. te amo assim mesmo
de manhã e de tarde
molhados por fora e por dentro
até que apareça a morte
mas não depois dela.

 Inutilidades

Quero estripar as palavras
rasgar os signos e os sentidos
compilar os restos em minha lista de inutilidades
e parar de me debater
procurando poemas onde não moram.

Ronaldo Sérgio

Noites de minh’alma

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Foto de André Luiz Bernardo

 

Quando a tarde cai em minha alma

nada se alardeia.

Apenas uma dor fina

vai atravessando todas as nervuras

amortencendo meus sentidos

até que eu durma.

Ronaldo Sérgio

Casas velhas!

Conto10

Foto do google

 

Há dias em que vivo uma tragédia. Há outros marcados por revoluções de minh’alma. Ontem, de tardezinha, quando o sol já fraco ia sumindo no horizonte plano do Suriname, tive vontade de chorar. De chorar a perda do céu, a perda da vida, a perda da dor, a perda da morte e a perda de mim. Não rezava e nem filosofava. Não pensei em Deus, nem em minha esposa e filha e nem nos homens. Olhava… como se olhar bastasse! Contemplava uma casa velha. Viver neste momento sem ela, seria o fim. Tinha se tornado meu sangue, meu ar, minha alma fora de mim, meu ser ao avesso postado a minha frente.

Tinha portas e janelas trincadas, mas não estava abandonada. Feita a mão, com martelo e prego, serrote e formão. Feita com cuspe. Com suor e sangue. Parecia ter alma. Tinha a espessura humana e o calor do céu. Era um misto de corpo e de espírito jogados no mundo. Criatura de um desejo e de uma vontade. Obra. Obra de arte.

Adoro casas velhas, porque têm memórias. Quanto mais velhas mais cheias de histórias e de profundidades. Quantas palavras coladas nas paredes querendo gritar, tocar o ser adormecido em mim? Quantas gasturas no olhar, vida e morte, sorrisos e amor?

Por fora e por dentro não existe distância como as esquizofrenias minhas e os tormentos dos meus desejos contraditórios. Velhas por dentro e por fora, são como um caminho cheio de surpresas. Quando estou perto ou entro nestas casas, é como se o ser desgarrado de meu corpo se virasse para mim e perguntasse: onde estávamos?

Em lugar nenhum. Em algum lugar da alma humana. Em mim mesmo. Estou onde sempre deveria estar, na minha velha agonia de ter que deixá-la. Partir…. porque outras profundidades da vida também haverão de me ater a elas e guardar resquícios de meu eu ficando velho.

Ronaldo Sérgio