Just like me

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Voor lezers in het nederlands/
Para el lector in español/
e em português.

Ze Veloso

O que resta de Deus em mim?
Quase nada.
Pois que é?
Um resquício mínimo
o que apenas se parece comigo.

Wat ontbreekt van God in mij?
Bijna niets.
Dus, wat dan?
Een minimale rest
Wat slechts op mij lijkt.

What is missing from God in me?
Almost nothing.
So, what then?
A minimum rest
what just like me.

Lo què queda de Dios en mí?
Casi nada.
Pues què es?
Un mínimo resto
lo què sólo se parece conmigo.

Foto de Zé Veloso

Ronaldo Sérgio

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Alma torta

Alma torta1

Foto do google

Tirem de mim o peso do nada,
o vazio do vento da noite,
a sombra que parece real
mas não tirem de mim a leveza
e nem a doçura de descascar uma laranja.

Minha alma é torta. Sim, muito torta.
Como as sombras na caverna
um mito antigo de Platão.
Carrega o sabor das laranjas,
atada às ideias do céu.
Pois é o nada que me fascina
e abala os objetos amarrados em mim.

de Faria, Ronaldo

A lentidão da vida

 

Conto19

Fotos do google

Um momento inesperado
trouxe consigo a dor
e a lentidão da vida.

Debatendo-se no chão
não conseguia falar,
mas gemia e chorava de dor.

Parecia uma casca seca
levada pelo vento forte
dos carros em velocidade.

Se revirando asfalto afora
queria apenas ir embora
pro outro lado da estrada.

Era um bicho, um lagarto
se contorcendo no asfalto
de dor que não era minha.

A minha dor era outra
de vê-lo espatifado
entre os pneus dos carros

Tão de repente um nada
que como eu respirava
e vivia no mundo de Deus.

Agora, nesta nova aurora
jorra minha dor como outrora
vendo a vida se acabar.

Ronaldo Sérgio

A fé que faz deus existir do nada!

Conto12

Foto do google

Segunda-feira, sentado na beira da cama no silêncio das cinco e meia da manhã, tive vontade de rezar. Não pronunciei nenhuma palavra. Fiquei calado olhando as cortinas da janela ainda fechada. A penumbra lá de fora evitava que houvesse alguma imagem que me distraísse. Quis dizer umas palavras, mas não consegui. Faltava-me algo, na verdade, me faltava alguém, o interlocutor. Senti um vazio. Não um vazio intencional porque eram meus ensejos que me levavam à orar, mas senti o vazio do lugar do outro. Rezar a quem? Com quem falar?

Nesta manhã, Deus não estava perto de mim. Talvez nunca estivesse e todos os meus lamentos e orações passadas não passaram de solilóquios ou monólogos entre meus ‘eus’. Tenho vários. Todos temos muitos “eus” e cada qual mais obsceno do que o outro. Frequentemente, estão resvestidos de uma máscara. Outras vezes, estão todos encavalados em cima um do outro.

Estou assim até agora, sentindo-me desbloqueado e desconectado do mundo da fé que faz Deus existir do nada. O que parece bastante contraditório, pois foi ele que, conforme a sabedoria judaica, nos criou do nada. A fé é mesmo quase desnecessária, neste sentido. Por isso, me recusei a usar o recurso psicológico da fé para me salvar desse momento de angústia. O tremendo e o medonho de Rudolf Otto não me salvaram, pois não havia nada de espantoso e nem de terrível em minha experiência. Nada de Deus, nada do Numinoso. Senti-me só.

O salto da fé que faz aparecer um ser supremo e todo poderoso que nos protege e salva, é uma ilusão. O deus da fé herdada é uma invensão. Uma imagem desnecessária. Uma projeção da alma humana. Um recurso de linguagem. Por que acreditar então? Porque ele é invisível e insondável, alguém diria. Sim, mas estas palavras não acrescentam nada à Deus em si mesmo. São invólucros do espírito humano.

O certo é que eu, nem com minha inteligência e nem com meus sentidos gostaria de forjar um Deus para satisfazer às minhas necessidades. E por mais que tente que ele apareça ou que eu o sinta, não o poderei converncer a existir exclusivamente para mim. Mesmo que eu tome as leis naturais ou teológicas que tentam ‘provar’ sua existência, não consiguirei trazê-lo à luz do dia. Neste sentido, sou seguidor de Freud e Nietzsche.

Ronaldo Sérgio

Viver

Conto6

Foto do google

Viver é fugir do nada!

Ronaldo Sérgio

Temperados de nada

O ser que sou está jogado no ser que está aqui agora à sua frente. Meu eu… meu rosto… minha velhice… meu sorriso e meu amor por ti… bem limitados, pois temperados de nada também.

Ronaldo Sérgio

Ajude-me!

Significava um mundo jogado no fundo do poço.
Como se faz com o purê de batata grudento,
como se faz com o mingau endurecido,
como se faz com gente atrarrancando outras vidas.

Muitos veem… isolam…. abandonam… e jogam fora…

Significava um ser despencado no nada.
Como num acidente inesperado e brutal,
como num dilúvio carregando crianças e lixo,
como num silêncio destroçando vidas.

Muitos veem… choram… se calam… e se esquecem…

Significava o acaso embolando planos e desejos.
Como se ouve um “”não” bloqueando a felicidade,
como se rouba cruelmente o alimento alheio,
como se alguém caído, ínfimo e quase morto dissesse:

Ajude-me… ajude-me… ajude-me…. e se cala…

Esconde o rosto…
Esconde o corpo
Esconde a alma
E morre….

E morre… duro e frio.

Ronaldo Sérgio