Chorando

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Importunar o vento não posso
e pedir-lhe que te acompanhe
que não se afaste de ti
que segure os seus passos no calar da noite
que toque o seu corpo purificando o seu amor
e nem implorar-lhe que te conte os segredos
dos meus pensamentos.

Não quero discutir com o sol
que entra pela janela
e me deixa só,
nem com as tristes garoas
a tocar minhas flores no quintal
chorando por ti
desejando-te o teu perfume
o balanço do seu andar
o tom da sua voz.

Só quero rogar aos riachos para que voltem
que retirem a escuridão do seu caminho
para te pedir perdão
e acreditar que posso ti amar
todas as tardes
e todas as manhãs.

 

Foto de Jale Elaj
Poema de Ronaldo Sérgio

 

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Delicada

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Repousa aqui o seu canto
tão cedo acordada
fiando finuras em mim.
Sua delicada beleza
fascina-me tanto
cada dia é um trecho
devagar como a vida.
Percorro meu rosto
desenhado no espelho
e voo e canta em meu peito
a doçura de ser
longe da noite
debaixo da luz do sol
contigo ao amanhecer.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

São sonhos

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Antes que os sonhos terminem
no enredo da noite, já é dia.
Numa oca sem portas e janelas
os ventos vão e vêm
como nossas sensações
vagam pelo nosso corpo.
São sonhos.
Seus realces ficam o dia inteiro
nas rasuras da nossa memória
no riso, na finura do olhar.
É  lindo olhar o céu
ver que o dia também traz os seus
que como fogo
incendeiam esperanças.
O céu fica tão azul
que o infinito entra dentro da gente.

Ronaldo Sérgio
Foto de Rivaldo Mauro

Pétalas do anoitecer

29.05.2016 - 1

 

Somente um dia. Deixe-me tentar. Apenas um dia. Dê-me um beijo e venha espalhar comigo essas pétalas.

Saíram…

À tardinha tudo é bem diferente. O amor anoitece. Belo e terno. Mas não dorme. Ama-se com a fibra do sol se pondo. Fica querendo deixar rastros. E deixa… sempre deixa.
Espalharam pétalas na entrada de casa. Brancas, vermelhas, amarelas, pequeninas e grandes. Eram lindas. Deixaram suas mão perfumadas. O olhar bonito. O coração aquecido.

Olharam-se.
__ Venha sentar-se, meu amor!

Esperavam. Com o cheiro doce e temperado do anoitecer ainda criança. A comida pronta e mesa feita. Eram seus amigos. Viriam para o jantar. Naquela noite. As pétalas brilhavam com a luz da varanda.

Viram… se olharam…
__ Nossa, que lindo!
__ Sempre cheios de carinho!

Nem bateram à porta. Já estava aberta. Tinham ouvido o barulho. Sentido o tempo deles. E ido ao seu encontro. Abraçaram-se… sobre as pétalas. Entraram…

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

À luz das lamparinas

Conto30

Viver à luz das lamparinas. Uma luz quente e firme, de um fogo que parece não se apagar. É mistério. Ao redor das chamas que não iluminam tudo. Que guardam as belezas da noite. É como ser luz e não ter luz. Flamas que são retratos. Frágeis como nós. Trazem consigo o essencial. Viver é na lentidão.

O pavio se queima. Nunca até o fim. A brisa da noite que o diga. Perfuma a sala, a cozinha, o quarto… nossa alma. Ali ao redor pode-se contar casos, ouvir histórias. As vozes estão mais livres do medo.

Sua luz vermelha nos conforta. Sua claridade misturada com a escuridão é o coração da casa. É de se ver. A lamparina traz a luz amiga da escuridão. O que nos assusta é a penumbra.

Sua luz tem cheiro. Dá fome na gente. Seu balanço dá sono. Dorme-se em paz. Sem medo do amanhã.

Com ela, o tempo parece estar tecido com fios sutis e eternos. A noite é noite. Somos o que somos. Não há fuga. Nem se prolonga o dia encurtando a noite. Sentado no banco brinca-se com caixinhas de fósforos. Ao redor da vida… vivendo.

 

Foto de todocauso

Ronaldo Sérgio

Alma torta

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Foto do google

Tirem de mim o peso do nada,
o vazio do vento da noite,
a sombra que parece real
mas não tirem de mim a leveza
e nem a doçura de descascar uma laranja.

Minha alma é torta. Sim, muito torta.
Como as sombras na caverna
um mito antigo de Platão.
Carrega o sabor das laranjas,
atada às ideias do céu.
Pois é o nada que me fascina
e abala os objetos amarrados em mim.

de Faria, Ronaldo

Noites de minh’alma

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Foto de André Luiz Bernardo

 

Quando a tarde cai em minha alma

nada se alardeia.

Apenas uma dor fina

vai atravessando todas as nervuras

amortencendo meus sentidos

até que eu durma.

Ronaldo Sérgio