Pesteado

 

5674856479_cf905e6b77_o

Penumbra
devagar divaga em seu olhar
voa tomando espaço
e os resquícios do sol
caem lentos
quando os medos
tomam conta dele
estacou-se vendo.

Redemoinho
na curva da estrada
virando os vãos
apossando-se dele
que deixa os passos
trêmulo apressados
fora de si
segurando-se mal
ao capeta atento.

Pesteado
vai de revés voltando
o olhar pra trás
recostando ao léu
sua lembrança doce
de quando menino
virava a vida
como o poeira vira
ao sabor do vento.

O capeta estava dentro dele.

Foto: mana5066
Ronaldo Sérgio

Anúncios

Lascas de um dia

Novo5

__ Perdoe-me! Meus olhos estão pesados. Minha fronte dói. Sinto um vazio lá fora. O que me move por dentro se cala. Restam-me lascas de um dia difícil. Preciso dormir. Boa noite!

Tocou-lhe o peito, aproximando seu corpo ao dele. Debaixo dos lençóis. Deu-lhe um beijo.

__ Eu sei meu amor. Boa noite, durma bem!

Caíram no sono.

Foto de photobucket
Ronaldo Sérgio

 

 

Abraça-me aos poucos

Jale Elaj2 (2)

Pesado me sinto
quase insuportável sem ti
aturo em mim
tristonhos desejos
e passo o tempo
catando porções
quando aqui perto
te agarrava aos beijos.

Amo aos trechos
porque dói
carregar em mim
o que sempre esboça
em seu olhar
quando vai embora.

Com o vento
pedaços caem de ti
e leva de mim
meu amor retalhado
a casa cheia
de seu jeito de amar
machuca minha alma.

Sereno me sinto
aos acenos que vem de ti
gritando pra mim
a volta pra casa
derramando afeto
abraça-me aos poucos.

“Te amo!”

Foto de Jale Elaj – Google+
Ronaldo Sérgio

O Morto!

Zé Veloso

Sobras de tempo
nas gretas e o susto
do grito nas sombras.
Atrás do muro
o vagar da vida,
entre as folhas,
tosca como as pedras.

Tropeça em seus pés
a brisa enlevada
distraída aos sussurros
com a morte e o nada.
Cai em si,
o mundo pendido,
a ave tombada.

Figuram os galhos
o oco da vida,
o frágil estilhaço
de corpo estendido.
A doçura da morte
ao descaso se esconde
dormindo contigo.

Esbarra-se aos becos
nos arredores da gente,
sem azos à dor
alheio ao olhar
de quem passa espantado,
espalmando ao largo
a fronte seca: morto.

Ronaldo Sérgio

Óculos quebrados

Conto23

Foto do google

A angústia é um trecho inóspito. Desertada do sentido que os desejos projetam. Assombra o olhar da gente. Faz ver o que dói. O que destroça por dentro. Abafa. Abre as tramelas da alma que, como janela batendo contra o vento, se fere a si mesma.
Viver é sofrer. Reunir retalhos a cada dia. Solitário e com o mínimo de luz. Neste mundo, como se existissem outros, não há outro caminho. Apressamo-nos a dar razão pra vida. Estudamos, nos casamos, temos filhos, fazemos faculdade, construímos casas… Damos sentido ao sem sentido. Forjamos a vida com a beleza. Com dinheiro compramos bem-estar. Mas, a vida é um poço vazio. Em si mesma não traz nada. O que achamos que é, é adereço, adorno. Apenas enfeite.
Depois de vivida, é como óculos quebrados. Colados com fita, feios. Ainda utilizáveis. Sentido? Sim, um sentido bruto. Tão grosseiro que fere. Para o outro que os vê no rosto da gente parece uma aberração. Mas, bruto é sentir-se brutalizado! Como se os mesmos óculos estragados fossem olhos perdidos. Furados. Doentios. À vista, assim no duro. Cru. Exigindo algum sentido. Vertendo lágrimas escondidas lavando o rosto. Aberrados, fora do padrão de beleza. Sem significado ao mundo. Sem valor. Valor que define sentido.
Estranho quando me olhava. Um senhor alto e de óculos. Algo o atraía, o deixava angustiado. Sua alma se debatia. Abafada não encontrava sentido no que via. Estava como que assombrado. Aberrado por dentro. Olhava e olhava, instigado a virar-se e a olhar de novo. Nada dizia. Por um instante ficou perdido num trecho inóspito. Se virava para um lado e, depois, para o outro. Entrava no bar e saía e olhava outra vez. Mas, estranho era o outro que, assim no soco, ali na rua esperando, despreocupado, trazia no rosto seus óculos quebrados…

Foto2

Rancho do Peregrino

 

Ronaldo Sérgio

Narrativas de amor

Narrativas curtas de amor são poemas do correr do dia.

Dia1

Dia2 Dia3 Dia4 Dia5 Dia6 Dia7 Dia8 Dia9 Dia10

 

Ronaldo Sérgio

Marteladas de não

Procurava uma bica d’água
balançando o corpo ao andar
Pisava com incerteza
e sem firmeza no olhar.
Falava enrolando a língua,
apressado e sem parar.
Era um senhor sem beleza,
baubuciando ao céu pra ajudar.

Não exitou em pisar o gramado
do jardim descuidado que havia,
onde ratos fugiam ao léu
da luz do sol que surgia.
Aproximou-se abismado
da bica d’água que via,
bebeu e olhou ao céu
no marasmo daquele dia.

Voltou a sentar-se no banco,
inquieto por ter que esperar.
Cortando os atalhos do horror
do espírito que não atura ficar
amarrado num tempo em branco.
Sem profundeza no olhar
revivia o primeiro terror
das auroras de seu lar.

De repente, ficou teso e disperso
consigo mesmo entretido,
fuçando as bagunças da mente
querendo encontrar sentido
no mundo sempre adverso,
às falcatruas do incontido
do incontido desejo premente,
ao silêncio abduzido.

E assim ficou horas e horas
sem conseguir tocar a alma,
vendo gente ao seu redor,
desconhecendo-se no trauma,
e nas dores desoladoras.
Ficou a ficar sem calma,
olhando para o corredor,
não via vivalma.

Era normal viver espatifado
como cacos de vidro pelo chão,
com o olhar desentranhado
quebrado com as marteladas de não.
E assim desde criança, instigado
a viver com resquícios do pão
do pão de não despenhado
sobre si, foi perdendo a razão.

Ronaldo Sérgio