Meu figurado amor

Teria sido o vento
ou a luz de Atenas
Teria sido a curva
ou a dor apenas
Teria sido sonho
ou o mar de avenas.
Quem dera fosse amor
em quietas cenas
Quem dera fosse dia
apaziguando penas.
Quem dera fossem palavras
como Mecenas
Protetoras de meu eu
minha angústia apenas.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

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Do amor e outros demônios

3.08.2016 - 1 (1)

Poema inspirado no romance de Gabriel Garcia Márquez: Do amor e outros demônios.

Arrancaram de seu olhar
aos gracejos de sua voz
seu sorriso e o sol.

Tiraram-na do mundo
e numa cela imunda
tecia os dias recortando o céu.

Quem dera fossem diabos
os pensamentos teus
tuas palavras roucas.

Ver-te em minha alma
Chorosa e dorida
presa da fé estúpida
que outros cultivam
dá vontade de gritar e te recolher.

Torceria o fim
para te ver salva
mas o que me aguarda
é ler-te em mim desfalecida

Pelo mal de deus
carregando cruzes
santos brutalhados
foste enorme a dor
hoje a minha dor
é ver a morte sua.

Resenha muito boa em PDF Do amor e outros demônios. Gabriel Garcia Márquez

Foto de Jali Elaj

Ronaldo Sérgio

Faustoso chapéu

Desdobra em si
gentileza fina
o contorno leve
da alma a sina
de ser bela.

Esconde os sonhos
de menina, aquece
a pele de mulher
de amor incandesce
até o fim.

Sem tí, ó faustoso
que honra o rosto
que desata o véu
e o sofrimento tosco,
ficaria a dor.

A face enobrecida
contigo fica até mais linda
coroada de cor
como em morada eterna
cheia de amor.

Ó faustoso chapéu!
A ti guardei em palavras
o que tu em mim lavras
caminhando contigo
contigo em mim.

Ronaldo Sérgio.

Adoro chapéus… Acho galã para os homens e belíssimo para as mulheres. Poema inspirado no post do blog acima mencionado (na foto). Abrs.

Você e eu

Conto22

Foto do google

O que me une a ti
constrange-me sem resposta
são suas pequenas distrações
o susto repentino em seu olhar
o paladar que desenha meus sentidos
quando sinto o seu cheiro
e o viveiro de delicadezas
de toques e sussurros.

Sempre desejei amar assim
com aperto no peito
o cochicho ao pé do ouvido
e o pote cheio de carícias
derramando incompletas palavras
entre evasivas angústias de ficar só.

Irreal é o mundo
o tempo perdido no trabalho
a comida sem sabor
longe de ti, horas e horas
prisioneiro do agora
ocupado com sonhos
e tentando conter-me
para não gritar: te amo.

Ronaldo Sérgio

Poemas que nascem do nada

DSCI3640

Goteiras

Chove pesado em meu quintal
apenas em meu quintal
mas não deixo ninguém notar
as goteiras em meu semblante
fazendo jorrar pedaços de minha alma.

Cipós

Minha alma é torta como cipós entrelaçados.
Um desejo aqui, uma sombra ali,
uma vontade nunca satisfeita,
sonhos espedaçados,
a esperança e o amor.

DSCI3658

Morte

Sem chances…. te amo assim mesmo
de manhã e de tarde
molhados por fora e por dentro
até que apareça a morte
mas não depois dela.

 Inutilidades

Quero estripar as palavras
rasgar os signos e os sentidos
compilar os restos em minha lista de inutilidades
e parar de me debater
procurando poemas onde não moram.

Ronaldo Sérgio

Há de haver um site ou blog assim!

COnto14

Foto do google

Estou em casa, na beira do mundo, confiando que pessoas de todos as partes do planeta possam ler esta mensagem. Pessoas de todas as idades, raças, costumes e religiões. Não importa. A maioria delas nunca terei a chance de encontrar. O que não é um problema. A maioria delas eu não conheço e nem conhecerei nunca. Não sei como elas se parecem, nem o que elas desejam e sonham para si mesmas. Também não vejo e nem sinto suas angústias, medos, temores e dores. São desconhecidas, estranhas para mim.

E o que mais me povoa a mente, neste momento, é saber simplesmente que minhas palavras haverão de as encontrar, onde estão e como são. Sem nenhum propósito de as retirar do mundo e nem de trazê-las perto de mim. Sem a intenção de convencê-las a ser como sou e a pensar como penso.

Carrego apenas o desejo de vê-las um pouco menos desconhecidas e estranhas. E que eu possa me ver mais próximo delas. Assim, nos tornaremos mais humanos, descoisificados das pretenções objetivas. Porque, estranhos também têm coração e são gente.

Hoje em dia ficou difícil perceber que quem passa por nós na rua, nas praças e avenidas é um outro como nós. Um ser humano. Parece que nos tornamos imunes a tudo e a todos. Não nos vemos implicados  nas tragédias e dores diariamente informadas nos jornais. Tudo parece falso, fictício. Como as novelas da televisão. E porque somos muitos, não queremos correr o risco de ter empatia por alguém.

Estamos tão distantes e solitários uns dos outros. Construímos muros invisívies. Obstáculos quase sempre intransponíveis ao outro. Tudo gira em torno do pessoal, do privado. Tudo gira ao redor do próprio sonho a qualquer custo. Estamos ilhados. Estamos lá onde estão os ‘meus’ desejos, necessidades, dores e angústias. Desejamos o que desejamos, e não vamos dar o braço a torcer até que tenhamos. Onde mora o outro, então?

Há distâncias entre a gente. Espaços. Montanhas. Rios e rios de terra e mato e perigo. Há inabitados campos. Somos perfeitos desconhecidos uns dos outros. Distâncias que haveriam de ser atravessadas, pois temos tempo para isso. Mas, nada é grátis. Queremos gratificações. O outro deixou de ser o que é, destino. Tornou-se meio. Tornou-se pedra  no meu sapato. Tornou-se dinheiro. Likes. Indiferenciado, muitas vezes. Porque desejamos o que desejamos e tem que ser agora.

Desbravar espaços para construir um relacionamento genuinamente forte e estável com o outro é impossível. Quantas redes de relacionamento pela internet fabricando ilhas e aumentando o isolamento. Nada de interação. Pessoas bebem o que curtem e clicam sobre a palavra curto, descatam o que não lhes interessa e se sentem satisfeitas. Muitas redes de interação criam interativos. Pessoas não.

Duas palavras faltam na mídia, blogs, podcasts e websites: zelo e cuidado. Não zelamos uns pelos outros. Nem tentamos. Não cuidamos. Não queremos construir, queremos tudo pronto e preparado para o uso. Quase sempre coisas descatáveis.

Sonhamos com amores perfeitos, com histórias surpreendentes e final feliz. Queremos a felicidade. Mas, não a procuramos onde está. Queremos um caminho já feito. Não devemos perder tempo com algo novo, com o outro que se desponta em meu horizonte. Com alguém que me incomoda mostrando meus limites. Com uma pessoa que não sou eu. Queremos apenas satisfazer o próprio ego. Dois mil likes sobre minhas fotos.

Mas, há de haver um site assim, que ainda não encontrei. Que traga pessoas mais próximas umas das outras. Que não as afaste do essencial. Que não as coisifique e nem descontrua valores.

Ronaldo Sérgio

Feridos de fortaleza

Ouro fino Conto1

Há um bom tempo atrás fiz uma música relembrando os meus amigos e amigas da juventude. Cenas lindas e outras tristes foram passando diante dos meus olhos. Cenas misturadas com as paisagens de Ouro Fino, cidade linda do sul de Minas Gerais. Música composta para todos eles, com muito carinho. Cada um de nós tomou o seu próprio caminho. Muitos se formaram, se casaram. Continuamos amigos. Outros não sei o que fazem e nem como vivem. Perdemos os laços. Laços bons, saudáveis, mas que não existem mais. O importante é que compus também para eles e para aqueles que ainda fazem parte de minha vida. O nome é muito sugestivo: feridos de fortaleza. Fortes e lindos quando jovens, mas feridos de grandes paixões e amores que não voltam mais…

Quem sabe, fizemos como fomos
fiéis e um pouco santos
nada demais pro tempo
rebeldes como jovens e estamos bem.
Contamos as cores e as aventuras
a nossa fisionomia,
contive um riso livre
segredos de um velho estilo e estamos bem.

E tudo mais eu sei, virá:
o amor por descobrir
as luzes pra viver
um sonho bom pra nós
no desvelar do ser.
Amante, amado, por se fazer.

Que bom, olhamos a mesma estrela
feridos de fortaleza
com charmes de finitude
um fundo de encanto novo e estamos bem.
Amamos, criando a nossa morada
o enfeite da existência
palavras de fogo escritas
tão joviais de alma e estamos bem.

E tudo mais eu sei, aconteceu:
as fugas no caminho
de vento os moinhos
as mil e uma portas
da imaginação.
Amante, amado, nem tudo acabou.

Há um poço, além das rochas.
Você até que ficou triste
quando eu fui embora
mas a minha vida é outra.
São fagulhas do nosso jeito de ser,
o amor que nos escapa,
correndo pela casa
e por onde andamos.

Ronaldo Sérgio