Chorando

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Importunar o vento não posso
e pedir-lhe que te acompanhe
que não se afaste de ti
que segure os seus passos no calar da noite
que toque o seu corpo purificando o seu amor
e nem implorar-lhe que te conte os segredos
dos meus pensamentos.

Não quero discutir com o sol
que entra pela janela
e me deixa só,
nem com as tristes garoas
a tocar minhas flores no quintal
chorando por ti
desejando-te o teu perfume
o balanço do seu andar
o tom da sua voz.

Só quero rogar aos riachos para que voltem
que retirem a escuridão do seu caminho
para te pedir perdão
e acreditar que posso ti amar
todas as tardes
e todas as manhãs.

 

Foto de Jale Elaj
Poema de Ronaldo Sérgio

 

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Riacho de minh’alma!

Conto13

Foto do google

 

O riacho que mora dentro de mim é doce, o espelho de minh’alma. Fonte de prazer, leveza e brandura, leva tudo consigo. Às vezes, nas bravias correntezas, carrega a beleza de ser o que sou. Um milagre de águas límpidas quebrando as rochas, saltitando como pedrinhas de bilhantes, uma atrás da outra.

Com a maciez das pequenas ondas varria do meu coração temores infantis. Outros tantos trazia, pesares e arrependimentos, o lancinante ressentimento misturado com sentimento de culpa.

Ali eu ficava quieto e calmo ouvindo e vendo, tocando e sentindo tudo. O riacho era o fundamento do meu mundo. A janela, a porta e o travesseiro. Tudo em minha vida existia como que para dar sentido ao correr apressado das suas águas.

Vida fluía e me enchia de esperança. Um dia conheceria as coisas como elas são. As águas que iam… e iam… e iam sem parar, gritando como inda ouço agora: vá, não pare… vá… o belo está lá, pra onde o aqui te empurra.

O riacho espelhava meu sonho. Minha agonia de ser feliz, quando triste por nada. Como gozo e gosto misturado na boca, ainda sinto o sabor de suas gotas molhando a ponta do meu nariz. Que destreza e frescura corriam em minhas veias. Destreza que move até hoje dentro de mim a ternura pela vida.

Atravessamos camadas juntos, camadas do bem e do mal, do dia e da noite, numa luta de amor, sem cordões ligando os fatos. Assim regresso no tempo e vejo como ele era, como ele é aqui dentro de mim, em minha alma. Vejo e sinto a fina linha que dá sentido à vida, como as suas águas nascendo, sem fim. Brotando da rocha como antes. As águas do riacho de minh’alma.

Ronaldo Sérgio