Delicada

Conto36.JPG

Repousa aqui o seu canto
tão cedo acordada
fiando finuras em mim.
Sua delicada beleza
fascina-me tanto
cada dia é um trecho
devagar como a vida.
Percorro meu rosto
desenhado no espelho
e voo e canta em meu peito
a doçura de ser
longe da noite
debaixo da luz do sol
contigo ao amanhecer.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

Faustoso chapéu

Desdobra em si
gentileza fina
o contorno leve
da alma a sina
de ser bela.

Esconde os sonhos
de menina, aquece
a pele de mulher
de amor incandesce
até o fim.

Sem tí, ó faustoso
que honra o rosto
que desata o véu
e o sofrimento tosco,
ficaria a dor.

A face enobrecida
contigo fica até mais linda
coroada de cor
como em morada eterna
cheia de amor.

Ó faustoso chapéu!
A ti guardei em palavras
o que tu em mim lavras
caminhando contigo
contigo em mim.

Ronaldo Sérgio.

Adoro chapéus… Acho galã para os homens e belíssimo para as mulheres. Poema inspirado no post do blog acima mencionado (na foto). Abrs.

Desamarrada do mundo

Vassoura1

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia uma angústia infinda,
como um oco fundo no peito,
como um lampejo sem sentido ainda,
um calafrio pelo corpo inteiro,
uma luz opaca lhe cegando a vista.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia uma pesada calma,
o vento lhe tocando o corpo,
recusando tocar-lhe a alma.
o olhar longe, absorto,
distrai-se com o próprio trauma.

Pelos campos a cortar vassoura
sentia o peito oprimido.
Com o sol lhe queimando o rosto
e o cheiro de alecrim florido,
que traía-lhe a vontade e o gosto
de varrer da vida o lixo.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia a dor de ser uma só,
de ter que manejar a vida,
sofrendo para desatar o nó.
O nó da má-fé da lida,
como mãe, mulher e avó.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia a vida afastar-se de si,
o chão já não existia,
nem via mais o alecrim.
Desamarrada do mundo, ia
caindo morta sobre o capim.

Ronaldo Sérgio