Chorando

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Importunar o vento não posso
e pedir-lhe que te acompanhe
que não se afaste de ti
que segure os seus passos no calar da noite
que toque o seu corpo purificando o seu amor
e nem implorar-lhe que te conte os segredos
dos meus pensamentos.

Não quero discutir com o sol
que entra pela janela
e me deixa só,
nem com as tristes garoas
a tocar minhas flores no quintal
chorando por ti
desejando-te o teu perfume
o balanço do seu andar
o tom da sua voz.

Só quero rogar aos riachos para que voltem
que retirem a escuridão do seu caminho
para te pedir perdão
e acreditar que posso ti amar
todas as tardes
e todas as manhãs.

 

Foto de Jale Elaj
Poema de Ronaldo Sérgio

 

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Pesteado

 

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Penumbra
devagar divaga em seu olhar
voa tomando espaço
e os resquícios do sol
caem lentos
quando os medos
tomam conta dele
estacou-se vendo.

Redemoinho
na curva da estrada
virando os vãos
apossando-se dele
que deixa os passos
trêmulo apressados
fora de si
segurando-se mal
ao capeta atento.

Pesteado
vai de revés voltando
o olhar pra trás
recostando ao léu
sua lembrança doce
de quando menino
virava a vida
como o poeira vira
ao sabor do vento.

O capeta estava dentro dele.

Foto: mana5066
Ronaldo Sérgio

Pétalas do anoitecer

29.05.2016 - 1

 

Somente um dia. Deixe-me tentar. Apenas um dia. Dê-me um beijo e venha espalhar comigo essas pétalas.

Saíram…

À tardinha tudo é bem diferente. O amor anoitece. Belo e terno. Mas não dorme. Ama-se com a fibra do sol se pondo. Fica querendo deixar rastros. E deixa… sempre deixa.
Espalharam pétalas na entrada de casa. Brancas, vermelhas, amarelas, pequeninas e grandes. Eram lindas. Deixaram suas mão perfumadas. O olhar bonito. O coração aquecido.

Olharam-se.
__ Venha sentar-se, meu amor!

Esperavam. Com o cheiro doce e temperado do anoitecer ainda criança. A comida pronta e mesa feita. Eram seus amigos. Viriam para o jantar. Naquela noite. As pétalas brilhavam com a luz da varanda.

Viram… se olharam…
__ Nossa, que lindo!
__ Sempre cheios de carinho!

Nem bateram à porta. Já estava aberta. Tinham ouvido o barulho. Sentido o tempo deles. E ido ao seu encontro. Abraçaram-se… sobre as pétalas. Entraram…

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

Segure minha mão

Foto

– Não me deixe completar o ciclo do esquecimento. Segure minha mão. Vamos!

E saltaram juntos.

1942, lembrou-se. Estava na cozinha, toda corada, preparando o café. Era a sua primeira manhã em casa e sozinha com ele. Feliz ao vê-lo se aproximar trazendo seus chinelos azuis, pisando seguro e usando todo espaço que tinha, deu-lhe um beijo dizendo ‘bom dia, meu bem!’. Junho e o frio entrava pela janela semi-aberta.
O sol ainda fraco da manhã não esquentara o clima. Mesmo assim queriam passear. Dizer que estavam ali. Vivos. Casados para sempre. Vestiram-se bem agasalhados, aos toques sutis das mãos. O silêncio que, às vezes, cortava o balbuciar das palavras de afeto ainda não incomodava. Era o charme.

-Pronta?
-Sim, vamos.

Fecharam a porta. Deram-se as mãos. Olhares sorridentes. Pularam. O primeiro e o segundo.
A lentidão das coisas boas faz os anos passarem muito rápido. Dia após dia, os ritos e as surpresas vão se entrelaçando, como a beleza e o perfume das flores. Saiam quase sempre juntos de casa. Desciam as escadas sempre aos pulinhos e de mãos dadas, desde aquele primeiro dia.
Estivesse tudo bem em casa ou houvesse desentendimento entre eles, não importava. Aquele momento era tudo. O elo, a restauração do vínculo. A re-cordação do amor. A volta à fonte. O alforge das coisas boas da vida a dois. Os pulinhos nas escadas. De mãos dadas. Até os vizinhos conheciam a brincadeira. Anos e anos.

Mas naquela manhã, uma dor imensa comprimiu-lhe o peito. Chorou por dentro deixando as lágrimas caírem. Ele não estava mais ali ao seu lado.

Foto de Jale Elaj – Google+

Ronaldo Sérgio

Quando minhas palavras

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Foto do Google+

Quando minhas palavras forem reais como seus sorrisos. Quando forem delicadas como as flores. Quando trouxerem alegria ao coração e descanso para alma. Quando o sentido delas estiver abraçado com a vida.
Quando minhas palavras forem simples como é simples estarmos juntos, sentados ao cair da tarde. Quando ficarem caladas e no silêncio disserem tudo. Quando minhas palavras carregarem os corações e os encherem de doçura e respeito. Quando nascerem com o sol e nascerem com a lua, perfumando o mundo de luz.
Quando minhas palavras esculpirem retratos de paz e gentileza na brusquidão do mundo. Quando acariciarem os pés cansados e as mãos calejadas. Quando aquecerem o corpo fazendo-o forte contra a dor e o sofrimento. Quando minhas palavras tocarem a pele tecendo brandura e mansidão contra a violência.
Quando minhas palavras disserem o porquê do mal e o porquê do amor. Quando tocarem a alma sorrindo das tolices da vida e dos problemas inúteis que criamos. Quando minhas palavras voarem como o beija-flor. Quando correrem sobre as pedras como as águas cristalinas dos riachos. Quando tocarem o céu e se desmancharem como as núvens.
Quando minhas palavras forem laços entre nós. Quando ficarem contigo para fazê-lo feliz. Quando forem pontes de beleza e simplicidade. Então sim, também serei feliz.

Ronaldo Sérgio

Sucupira

Foto de Zé Veloso2

Foto de Zé Veloso

O que me faz sofrer, Sucupira,
nesse trecho da estrada
vendo o molejo sem parada
do sol que suspira
é o abandono.

Abandono que me leva
desejoso e inquieto
pisando em graveto
aos seus pés, me enleva
te ver Sucupira.

Ainda que eu seja
sempre um ser ido que sou
deixar-te onde ficou
dói, pois minha alma deseja
ficar contigo.

Insatisfeita peregrina
colhendo as fissuras do belo
em ti, Sucupira, desvelo
minha dor ferina
de te abandonar.

Ronaldo Sérgio

Solidez de alma

Foto de José Veloso

Foto de Zé Veloso

A casa que mora em mim é assim:
entra o sol, passa o vento
e fica o cheiro da chuva de ontem.

Os cordões de luz
afrontam-lhe a solidez
batem contra o chão
e parecem rir das grossuras do frio.

Tudo lá fora mora ali dentro
o ruído do mundo e o espírito de Deus.

As portas e janelas, recostadas ao canto,
fazem sombras, balançando com o tempo.

Sua dor é a de ser alma
de ser corpo e de ser mundo
sempre cheia de vãos
de tanto compilar sonhos.

Ronaldo Sérgio